A arca de Noé ©
Categoria: Música

O escritor Alberto Manguel retratou os críticos literários como sendo “(…) pequenos Noés que, diante do dilúvio do esquecimento (…), lutam para salvar em suas frágeis arcas de papel um certo número de animais prediletos”. Penso que o retrato vale para quem quer que se obstine em preservar da voragem do esquecimento as miudezas que o correr da vida costuma condenar ao naufrágio. Assim me sinto: um pequeno Noé salvando acontecimentos baldios do dilúvio que submerge o vivido em vagas lembranças – ou no total esquecimento. Navegando meio sem bússola, vim recheando minha arca de nonadas. De nonada em nonada, somo, hoje, quinhentos fragmentos de vida recolhidos com o anzol da palavra para a minha arca – toda ela carregada de textos leves, breves, com o contrapeso de um ou outro acontecimento mais triste. Meu ofício é baldear para a minha arca os desperdícios que bóiam no imenso mar do cotidiano em que a vida se espraia. Nela minha arca ponho um pouco de quase tudo: reflexões breves, acontecimentos baldios, memórias do outrora, memórias do agora, flagrantes do incessante desfile da vida, enfim, um pouco do que compõe o vasto arco do viver, nele cabendo miséria e maravilha, o banal e o fenomenal. Embora já bem cheia do que venho recolhendo, minha arca continua navegando leve pela superfície do cotidiano. E meu olhar de Noé se deixa fisgar por todo acontecimento com destino de desimportância. Tudo aquilo que se exibe quase invisível nas ondas do cotidiano tem destino certo: minha arca de Noé – também ela navegando quase invisível no imenso mar da internet.

© Nota de canapé: Parceria de Vinícius e Toquinho. A parceria batiza também o antológico disco da dupla.

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A felicidade ©
Categoria: Música

Gilberto Gil disse em algum lugar: “Há muitas formas de fazer música. Eu prefiro todas.” Eu digo: “Há muitas formas de ser feliz. Eu prefiro todas.” Só não vale ser feliz à custa da infelicidade de alguém. E também não vale a felicidade artificial das drogas. O resto tudo vale. Minha felicidade é zen e nem um pouco ruidosa. É muito mais da alma do que da geografia móvel do rosto. Minha felicidade não tá na cara… A alegria, sim… Esta é exibida, visível, tá toda na cara… A felicidade, não… A felicidade mora numa casa muito engraçada, não tem teto, não tem parede, mas na qual todo mundo pode entrar… Dizendo melhor: a felicidade pode entrar em todo mundo. A felicidade faz discreta folia na minha casa: entra e sai quando quer, não quando eu quero… Ah, mas que intrusa bem-vinda! Quando você quer que ela fique, ela insiste em sair: “Queira desculpar. Com licença. Preciso ir.” Quando você pensa que ela não virá, ela já está, há muito tempo que chegou e você nem havia percebido. Felicidade é assim: não tem hora pra chegar, mas, quando chega, chega com tudo. Põe uma corbelha de flores na sua alma e diz: “Vai, Tarlei, ser feliz na vida”. E você vai, claro… Fazer o quê?

 

© Nota de canapé: Parceria de Tom e Vinicius. Pedacinho da letra: “A felicidade (..) voa tão leve / Mas tem a vida breve / Precisa que haja vento sem parar”.

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