A arca de Noé ©
Categoria: Música

O escritor Alberto Manguel retratou os críticos literários como sendo “(…) pequenos Noés que, diante do dilúvio do esquecimento (…), lutam para salvar em suas frágeis arcas de papel um certo número de animais prediletos”. Penso que o retrato vale para quem quer que se obstine em preservar da voragem do esquecimento as miudezas que o correr da vida costuma condenar ao naufrágio. Assim me sinto: um pequeno Noé salvando acontecimentos baldios do dilúvio que submerge o vivido em vagas lembranças – ou no total esquecimento. Navegando meio sem bússola, vim recheando minha arca de nonadas. De nonada em nonada, somo, hoje, quinhentos fragmentos de vida recolhidos com o anzol da palavra para a minha arca – toda ela carregada de textos leves, breves, com o contrapeso de um ou outro acontecimento mais triste. Meu ofício é baldear para a minha arca os desperdícios que bóiam no imenso mar do cotidiano em que a vida se espraia. Nela minha arca ponho um pouco de quase tudo: reflexões breves, acontecimentos baldios, memórias do outrora, memórias do agora, flagrantes do incessante desfile da vida, enfim, um pouco do que compõe o vasto arco do viver, nele cabendo miséria e maravilha, o banal e o fenomenal. Embora já bem cheia do que venho recolhendo, minha arca continua navegando leve pela superfície do cotidiano. E meu olhar de Noé se deixa fisgar por todo acontecimento com destino de desimportância. Tudo aquilo que se exibe quase invisível nas ondas do cotidiano tem destino certo: minha arca de Noé – também ela navegando quase invisível no imenso mar da internet.

© Nota de canapé: Parceria de Vinícius e Toquinho. A parceria batiza também o antológico disco da dupla.

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O caderno ©
Categoria: Música

Por um tempo grande, escrevi os textos deste blog em folhas avulsas – as folhas descartadas das impressões diárias no local de trabalho. Em reaproveitava o verso das folhas ou o que sobrava de espaço nelas. Escrito o texto, e depois de passá-lo ao computador, as folhas eram descartadas. Agora que dei adeus ao trabalho, recorro aos caderninhos ordinários que servem de ninho para meus textos. Na mudança das folhas avulsas para os cadernos ordinários, o que permaneceu (e permanecerá para sempre) é a escrita à mão cobrindo de garatujas quase ininteligíveis as margens do papel. E as garatujas obedecem à velocidade do pensamento. O dramático é que, para não perder o pensamento, não é incomum que as garatujas se convertam em hieróglifos. A idade não faz diminuir a velocidade do pensamento, mas diminui, e muito, a velocidade da escrita. A conseqüência é a progressiva piora da grafia, a ponto de deixar ininteligíveis alguns registros feitos na velocidade do pensamento. Sabedor disso, tenho de cuidar que seja mínimo o espaço de tempo entre o escrever e o passar a limpo. Este é o primeiro texto no caderno da vez. E não sei se por algum prurido de estréia, o texto está até limpinho, o que não é comum. O normal dos textos é estarem cobertos de rabiscos – rabiscos que o raro leitor jamais verá, pois que os converto em traços imaculados na transposição aqui para o blog.

Do tempo das folhas avulsas, não sobrou nada. Do pouco tempo dos caderninhos ordinários, já contabilizo uma pequena coleção, toda ela preenchida com os desperdícios que não canso de apanhar no chão da vida. Minha escrita e os caderninhos ordinários em que a abrigo foram feitos um para o outro. Cheguei a ceder à tentação dos Moleskines, mas não ousei macular nenhum deles com minha escrita baldia. Gosto mesmo é do texto mantido em forma de rascunho, feito este que acabo de abrigar nas margens do meu caderno.

© Nota de canapé: Parceria de Toquinho e Mutinho.

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