Aula ©
Categoria: Literatura

Na caixa de mensagem, um convite e um presente. O convite chega transbordante do que mais singulariza a querida mestra: a paixão pelo ofício de repartir conhecimento. Em comemoração aos 50 anos de magistério, a sempre mestra convida os ex-alunos – que se tornaram alunamigos pra vida inteira – para uma aula especial. No convite não faltam palavras carregadas da vibração amorosa que é marca da professora, verdade que se pode ler facilmente nestes pequenos trechos do convite: “Transcorrem os anos, e teu nome, tua fisionomia, tua singularidade, no meio de milhares (sem exagero) de estudantes que passaram em minha vida, permanece além de minha ‘caixa de entrada’ no computador. (…) Este é um e-mail convite para que reserves parte da tua noite de 9 de maio deste ano para estarmos juntos, de novo, se isso te der prazer. (…) Com a ansiedade de quem espera um filho que vai nascer, planejo nosso encontro e reforço: comparece. Beijos fraternos, Hilda”. Convite irrecusável por todos os motivos e mais este: a aula seria no dia do meu aniversário – um presente e tanto para este sempre aprendiz. Confirmei minha presença nestes termos: “Como não estar presente numa aula áurea [assim a professora a batizou], se não o fossem todas as suas aulas? Não perco ocasião de colher suas lições de vida. Você é uma fogueira que não cessa de pôr chama na sua paixão de ensinar, de se repartir. Que lindo! Que convite lindo!”. Outros tantos alunamigos (mais de cem) fizeram o mesmo.

E a aula aconteceu. Um auditório da Universidade de Brasília, instituição em que a professora ocupou várias cátedras, foi o local escolhido. Devo dizer que a escolha do título (Aula Áurea) foi duplamente acertada: primeiro porque as aulas da professora são de fato preciosas; depois porque também, e principalmente, são aulas libertadoras – como o foi, em sentido todo denotativo, a Lei Áurea que hoje se comemora. No convite está dito: “Não será uma aula de pedagogia; será, sim, a pedagogização de uma aula de português-leitura-literatura. De tudo um pouco”. O tema que perpassou toda a aula foi “maternidade”. Escolha perfeita. E por conta dessa escolha, até ousei sugerir um outro batismo para a aula, que se somaria ao título escolhido: Aula Mater. Ali estava, mais uma vez, a mãe de tantos filhos intelectuais (entre os quais, muitos mestres e doutores) se repartindo generosa naquele desdobrar-se próprio das mães. Que aula! Aula regada a alegria, reencontros, mil abraços, vastas emoções… Terminou, e não seria pra menos, aplaudida de pé. Minhas palavras não dão conta de dizer o tanto que a professora Hilda é. Só sei dizer o quanto sou agradecido a ela. Então digo por mim e por todos: muito obrigado, professora Hilda!

© Nota de canapé: Um dos livros seminais de Roland Barthes (1915-1980).

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O rumor da língua ©
Categoria: Literatura

Porque gosto de escrever, alguns amigos deduzem que sou um expert em gramática. Não é o caso. Reivindico para mim uma certa autonomia no manejo da língua, o que me permite, não poucas vezes, passar ao largo da gramática prescritiva. Repare que estou falando em gramática prescritiva, aquela do certo e do errado. Porque, em verdade, a gramática é a própria língua. Nada na língua é por acaso (aliás, título de um livro do lingüista Marcos Bagno) e os fenômenos de linguagem independem da chancela dos guardiães da gramática. Não existe fala nem escrita agramaticais. A questão toda é de que gramática se está falando. E quando se fala em gramática, a associação imediata é com a gramática normativa. Eu me inclino mais para a gramática de usos da língua, esta que circula livremente entre os falantes. É claro que o registro escrito tende a ser mais formal. Mas questões como colocação pronominal, por exemplo, considero irrelevantes. Mesma coisa para certas regras de regência e concordância. Nesses casos, deixo falar mais alto a minha intuição lingüística. Já fui mais aferrado às pétreas regras gramaticais. Associava domínio gramatical a domínio lingüístico. O crescente domínio lingüístico, advindo do longo convívio com a língua escrita, foi pondo em segundo plano o engessado universo da gramática prescritiva. Eu gosto de passear pelos rios interiores da língua. E para o passeio ser completo, profundo, às vezes é preciso ignorar os comandos da gramática. É o que faço. Sinto da parte dos amigos um certo desapontamento quando digo que tenho dúvidas sobre determinada questão de linguagem. É como se a admissão da dúvida fizesse de mim um escritor de segunda categoria. E sou, mas não por causa da falta de domínio da gramática normativa. A essa altura, só estou interessado no rumor da língua – da língua viva que vive nos becos, nas bocas, em contraponto à língua fossilizada de certos compêndios gramaticais.

© Nota de canapé: Livro do semiólogo Roland Barthes.

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