Mãos dadas ©
Categoria: Literatura
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É manhã de domingo – mas não deste domingo. Venho de alguma comprinha no comércio próximo. É quando cruzo com pai e filho – este com uns oito anos. Conversam animados, e não consigo pescar nada do que se dizem – pena! No entanto, o que arrasta meu olhar como um ímã é o fato de estarem de mãos dadas. Pai e filho são meus vizinhos, mas aquele tipo de vizinhança moderna em que os vizinhos só se conhecem de vista ou, quando muito, de um cumprimento casual, sem qualquer proximidade maior. Eu me aproximo de pai e filho apenas com o olhar enternecido e os acompanho até virarem numa esquina – sempre de mãos dadas. Enquanto os acompanho, vejo que a conversa segue animada. É aquele momento em que tudo que o filho diz é importante para o pai; em que tudo que o pai diz é lição de vida e de mundo para o filho. É aquele momento em que um é todo ouvidos para o outro. O filho colhe vivências da boca do pai. O pai colhe inocência da boca do filho. O filho é o espelho em miniatura em que o pai se vê, se revê. O pai é o espelho que emoldura o mundo para o filho. É aquele momento em que se é mais totalmente pai, em que se é filho por inteiro, e as mãos dadas selam o afeto que se quer umbilical. É aquele momento em que o pai é herói de seu filho; em que o filho não deseja outro herói que não o pai. Esse tempo de total entrega, das mãos dadas, dura poucos anos – embora não vá se desgrudar nunca da parede da memória de ambos. Porque depois vem o tempo do filho dar as costas ao espelho em que não mais gosta de se ver refletido. Porque depois o pai não mais se enxerga no filho. E quando isso acontece, esse sentimento de completa intimidade só será revisitado, em plenitude, quando o pai for avô e o filho for pai. Mas agora só tenho olhos para a beleza do momento: pai e filho, de mãos dadas, sendo um do outro como o fruto e sua semente. Lindo!

© Nota de canapé: Poema de Drummond. Pode ser lido aqui.

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Belo belo ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Dedicado à amiga Marineide Oliveira)

Fim de manhã, finzinho de um programa de TV e um momento de beleza surgindo na tela – beleza tanto mais apreciada quanto mais se sabe o tão pouco espaço que há para o belo na TV aberta. Foi um pequeno momento que durou o tempo de uma música – mas quanta beleza coube ali! Falo da beleza que foi ouvir Milton Nascimento, com aquela voz que Deus lhe deu, cantando a belíssima Clube da Esquina 2 (♪). Fui tomado por aquele sentimento que Vinícius de Morais pôs nestes versos: “Resta essa vontade de chorar diante da beleza”. Ouvi a música com uma insistente neblina nos olhos. Se não me falha a percepção, a pequena platéia presente no programa parecia tomada pelo mesmo sentimento. A imagem de Milton cantando era alternada com imagens de pipas, de pessoas soltando pipas – pipa foi um dos temas do programa. Não foi preciso mais que uma música, uma voz, umas pipas no ar, para se armar na tela uma beleza rara de se ver. E via-se na pequena platéia aquele arrebatamento que o belo põe na nossa cara, fazendo-nos dizer sem palavras: “Deus, como pode tamanha beleza?!”. Desejo que o belo que me tocou naquela manhã possa ter tocado outros tantos, feito eu, famintos de beleza. E nisso a TV aberta é imbatível: o que ela irradia, para o bem e para o mal, atinge a casa de milhões. Em agradecimento, resta invocar Adélia Prado: “Beleza não é luxo. É ne-ces-si-da-de”.

(♪) Não consegui achar o vídeo do programa, mas a canção pode ser ouvida aqui.

© Nota de canapé: Belíssimo poema do nosso Manuel Bandeira. Pode ser lido aqui.

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