Comunidá ©
Categoria: Música

O meu clã é de gente que faz. Não desonro a estirpe familiar, mas sou de pouquíssima habilidade para quase tudo. Se me puserem tomando conta de uma churrasqueira, por exemplo, não sairá nada. Na nossa casa, essa parte ficou com meu irmão e ele se desincumbe dela muitíssimo bem. Mesmo dotado de pouca habilidade, não me recuso a pôr a mão na massa. Numa recente visita que fizemos, minha mãe e eu, a parentes de Cuiabá, houve ocasião da família exercer plenamente o lado “gente que faz”. Combinou-se um churrasco na casa de uma prima. E cada qual tomou para si uma tarefa. Nenhum convidado deixou de participar com algum tipo de ajuda. Um leva um pouco de carne, outro faz a comida, um prepara a maionese, outro cuida do vinagrete, um cuida da churrasqueira, outro busca bebida, um busca gelo, outro busca carvão, um cuida de lavar vasilhas – e todos se divertem. Sem muito esforço individual, arma-se o melhor churrasco – em quantidade, qualidade, animação – com o pouquinho de cada um. Eu fico encantado com o poder do improviso que se traduz nesses milagres de cooperação. Devo dizer que minha mãe honra com louvor esse traço familiar. Sendo a cozinha o domínio dela, assume com facilidade a função, ainda mais em casa de parente. Se não assume, auxilia com desenvoltura. O meu domínio é o da pia: lavo – e bem – o que for preciso. A verdade é que nem minha mãe nem eu nos comportamos como visitas nas visitas que fazemos. Esse espírito de comunidade está bem disseminado na família. Somos todos assim. Aprendemos desde cedo a ser assim. Meu lado preguiçoso não me permitiu desenvolver muitas habilidades. Ainda assim, creio não manchar o histórico familiar de “gente que faz”. É o que espero, pelo menos.

© Nota de canapé: Parceria de Gilberto Gil e Celso Fonseca. A gravação de Gal Costa pode ser ouvida aqui.

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Águas de dezembro ©
Categoria: Música

As águas de março fecham o verão – é o que atesta tanto o calendário quanto a conhecida canção de Tom Jobim. As águas de dezembro o abrem torrencialmente – é o que os brasilienses estamos testemunhando. Tem chovido quase todo dia. E são chuvas que eu, sem exagero algum, chamaria de amazônicas. Em dia de chuva, o trânsito de Brasília vira um nó indesatável. Sorte a minha de ser um pedestre e não ter de enfrentá-lo. Minha única preocupação é desviar-me das poças e de alguns motoristas que parecem ter gosto em presentear os pedestres com um banho de enxurrada. Já estou escolado. Difícil mesmo é proteger-se da conjugação chuva e vento, comum em Brasília. Aí não há guarda-chuva que dê jeito. E tenho um belo de um guarda-chuva. Demorei muito para encontrá-lo. Tem a vantagem de ser grande e facilmente transportável. Vem com uma capa que permite carregá-lo a tiracolo. Um luxo! Com o meu inseparável Fazzoletti (a marca do guarda-chuva), enfrento com galhardia as águas abundantes de dezembro. Quando chove muito pesado, recorro ao táxi. O inconveniente é a cara que o taxista faz assim que anuncio o destino. É um trajeto curtíssimo que eu, sensível, procuro compensar pagando sempre além do taxímetro. Ainda assim, não me livro de receber todas as vibrações ruins dirigidas aos, a priori, clientes-mala, já que o taxista só conhecerá meu lado sensível ao final da corrida. Todavia, acredito que a surpresa da generosidade consiga reverter os efeitos de alguma vibração ruim.

© Nota de canapé: Uma divertida parceria dos gaúchos Kleiton e Kledir.

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