Cais ©
Categoria: Música

Quem se entrega ao “imprudente ofício de viver em voz alta” (Rubem Braga), quem sucumbe ao imperativo de estar visível a todo momento, quem vive de lançar fios de si nessa rede sem fim, vai se defrontar, mais cedo ou mais tarde, com este dilema: ou a pessoa enjoa da brincadeira ou os outros enjoam da brincadeira da pessoa. O certo é que isso de ir “documentando o ócio para o público” (Alcides Villaça) acaba virando uma segunda natureza. E “como tem uns que gostam, e achar leitor não está fácil” (Alcides Villaça), a gente vai ficando. Porque é inegável: “A sensação de que alguns comentários corresponderam a uma forma de encontro não é descartável. Isso fica, aqui ou nalguma outra nuvem” (Alcides Villaça ligeiramente modificado). Agradeço muitíssimo pelo tanto que me fica dessa navegação despretensiosa que iniciei lá no dia 9/5/2010. Creio ter sido um bom timoneiro para o meu barquinho. Um bom timoneiro, no entanto, sabe a hora certa de ancorar. É o que faço. Mesmo ancorado, meu barquinho continuará ao alcance de qualquer navegante à deriva que nele venha aportar, auxiliado pelos poderosos tentáculos do Google.

Volto ao que disse o poeta, crítico e professor Alcides Villaça: achar leitor não está fácil. Daí que não posso correr o risco de cansar minha meia dúzia de leitores fiéis e menos ainda a outra meia dúzia de leitores casuais. Isso nunca. Afinal, foi essa dúzia de leitores que não me deixou navegar sozinho. Sendo certo que não se consegue ser interessante o tempo todo, a ancoragem é mais que prudente. São quinhentos e um textos baldeados para o meu barquinho. Não é pouca coisa. Uma parte do que baldeei deu em quase nada. Outra parte deu em nada mesmo. Desexplicando melhor: parte do que escrevi deu em Quase Nada, livro de crônicas – ou quase! Quase vexado, e porque o Natal já se aproxima, ofereço-o de presente ao raro leitor. Jura que aceita, mesmo sendo um presente de quase nada? Então é só clicar na imagem.

Agora, sim, é hora de ancorar. Antes, julgo necessário um pequeno esclarecimento. Na altura dos trezentos textos baldeados para o barquinho, ameacei seguir navegando até pescar nas águas da palavra mil e um textos. Cheguei a quinhentos e um. Outros quinhentos? Talvez daqui a algum tempo e em outro espaço. Se isso acontecer, o raro leitor terá notícias de que de novo me fiz ao mar. Agora, enfim, me recolho ao cais. Ancorar é preciso.

© Nota de canapé: Belíssima parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

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Solar ©
Categoria: Música

No livro Minha mãe se matou sem dizer adeus, do grande Evandro Affonso Ferreira, o narrador diz que certo personagem parece ter sempre um sol a tiracolo. O livro, como o próprio título anuncia, é sombrio, escuro, desencantado, e é narrado por um escritor que, mesmo não gostando da vida, não consegue cortar-lhe o fio. E sendo o livro sombrio, a imagem de alguém que tem um sol a tiracolo brilha mais ainda. Sou tímido, mas um tímido que carrega quase sempre o sol da alegria estampado na cara. Tenho uma natureza solar, apesar da timidez. Minha sintonia é com o riso, a brincadeira, a alegria. A vida é cheia de graça. E para achar graça na vida basta aprender para onde dirigir o olhar. Não fecho os olhos para o lado escuro da vida, mas a minha sintonia maior é com o lado do sol, o lado que brilha. Não perco ocasião de alegria. O riso, sempre pronto nos lábios, fica à espreita de algum lance alegre, divertido, engraçado. E se é para rir, rio de fechar os olhos, rio para além dos lábios, rio com a cara toda. Trago sempre um riso atocaiado na boca. E o riso explode por qualquer besteira, qualquer alegria baldia. Não sei de quem herdei o riso assim tão solto, tão à flor dos lábios. Talvez do pai, com quem convivi quase nada. Lembro com saudade episódios da meninice em que o riso não era bem-vindo (nas brincadeiras de esconde-esconde, por exemplo) ou às vezes era até proibido (na sala de aula, por exemplo). A interdição funcionava para mim como o mais irresistível dos convites. Aí não tinha jeito: era rir, rir e rir. Adiar o riso? Jamais. Continuo assim até hoje: rindo com a vida, rindo para a vida.

© Nota de canapé: Parceria de Mílton Nascimento e Fernando Brant.

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