Verdades provisórias ©
Categoria: Literatura

Vamos falar a verdade: é mentira que exista a Verdade. O que existe é um certo olhar para a realidade, e desse olhar nascem verdades provisórias. É no domínio do conhecimento científico e filosófico que o caráter de provisoriedade da verdade mais se evidencia. Se as verdades forjadas no âmbito do rigor das ciências são provisórias, o que sobra para os outros ramos da verdade? A mentira, uma vez manifesta, não deixa dúvidas sobre si mesma. Já a verdade, tão logo proclamada, tem arguída sua presunção de certeza. Nem se pense que os fatos, em aparência incontestáveis, estão a salvo da dúvida. Guimarães Rosa já disse que “tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos”. O que quer a verdade? Se até o tempo é relativo, como nos provou Einstein, como pode algo inscrito no tempo pretender-se absoluto? A verdade é que a verdade é muito ambiciosa, esquecendo-se de uma verdade elementar: “A verdade é uma só: a verdade não é uma só”. A verdade tem múltiplas faces. E todas elas provisórias. Verdades definitivas? Só os poetas nos dão. Leia que bela (e definitiva) verdade escreveu Mario Quintana: “Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos. / Não há coisa na vida inteiramente má. / Tu dizes que a verdade produz frutos… / Já viste as flores que a mentira dá?”.

© Nota de canapé: Livro do escritor Nelson de Oliveira.

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Tu não te moves de ti ©
Categoria: Literatura

Sou um leitor crônico. E a leitura de literatura é a mais profunda vivência de alteridade que se pode experimentar. Contudo, essa experiência é mediada e condicionada pela minha subjetividade. Leio o outro, mas com os óculos do “eu”. Não leio o outro em si mesmo. O que leio no outro é o que projeto de mim naquela dada vivência que experimento a partir de um outro. Nem por isso a leitura de literatura, e a vivência de alteridade que ela propicia, deixam de ser profundamente necessárias. É o contínuo experimentar do que se passa em outra subjetividade que expande minha subjetividade – e que lapida minha humanidade. Invocando o Rosa, “é preciso sentir até tirar as cascas da alma”. É a leitura que permite esse mergulho profundo em outros “eus”. Ouso dizer que não há outros “eus”. Há sempre eu mesmo visitando outros “eus” que, no fundo, são o mesmo “eu”. Senão o mesmo “eu”, pelo menos eu mesmo – que é a única subjetividade que experimento. Os outros “eus” que vivencio pela leitura são o meu “eu” projetado em outro “eu”. Todos os “eus” dos outros sou eu mesmo – acho. Por uma razão elementar: eu não me movo de mim. E tu não te moves de ti. Mas uma coisa é certa: eu e tu nos encontramos todos na leitura um do outro.

© Nota de canapé: Livro da fabulosa Hilda Hilst (1930-2004).

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