Sebastião ©
Categoria: Música

A primeira vez no Rio é daqueles deslumbramentos pra sempre inesquecíveis. A beleza de cartão-postal que encanta qualquer olhar, quando vista ao vivo encanta mais ainda. Sempre desconfiei da beleza de cartão-postal. O Rio cancelou minha desconfiança. Jamais me esqueço do alumbramento que foi a vista do Rio na subida do trenzinho do Corcovado. A beleza da vista vai se revelando aos poucos, não de todo. Conforme o trecho por onde o trenzinho passa, uma nesga de beleza se mostra para logo se esconder e de novo se desvelar um pouco mais em outro trecho. A cada vislumbre de beleza, o espanto de uma tal beleza ser possível. Depois dessa experiência epifânica de beleza, o Rio ganhou de mim um olhar mais que encantado. Sim, o Rio de Janeiro continua lindo. Sim, CaRIOcas são bacanas. Sim, é a cidade-maravilha, purgatório da beleza e do caos. Sim, é uma cidade partida, repartida entre o morro e o asfalto. Crivado de violência, feito Sebastião, o santo que lhe deu nome, o Rio não renuncia à beleza que é seu estandarte. Cravado numa geografia de mar e montanha, a beleza do Rio “quase arromba a retina de quem vê” (Chico Buarque). A beleza o redime, Rio, dos pecados da violência. Velam por ti o Redentor, o Pão de Açúcar, as pedras do Arpoador, o calçadão de Copacabana, o Sambódromo, a floresta da Tijuca, e o mar imenso a teus pés. Hoje é teu aniversário, Rio, e de longe mando aquele abraço! Que a mão do tempo e do homem continue guardiã de tua beleza – beleza nascida da mesma mão do tempo e do homem. Amém!

© Nota de canapé: Parceria de Gilberto Gil e Mílton Nascimento.

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Kaya N’gan Daya ©
Categoria: Música

Sou muito certinho pra cair na gandaia. A escolha do título foi só para evocar uma música que pretendo dançar muito no dia da minha alforria. É só para marcar o cair na gandaia da liberdade. É só para assinalar o vindouro tô-nem-aí para as obrigações com hora marcada. Continuarei tendo hora para tudo, mas no espírito é como se não tivesse hora para nada. A minha gandaia é só interior. A cabeça dá mil e uma voltas. O pensamento vagueia cheio de curvas. A imaginação gira desgovernada. Por fora, sou todo “cotidiano, fútil, tributável”. Por dentro, o poço é mais escuro. Quem vê de mim apenas o que aparento, vê quase nada. E não me incomoda que me tomem pelo que aparento. Aparento feições cândidas insuspeitadas, aparento ser o equilíbrio em pessoa, aparento placidez etc. Sou o que soa, mas sou além: sou também o que silencio. Tenho sido tão desembestado por escrito! O que sou mesmo, pra valer, não vem à superfície da palavra. Fica submerso no indizível. Falo a esmo. Falo além de mim mesmo. Falo sem parar. A gandaia de escritos mais me esconde que revela. É por isso que concordo tanto com o que disse Fernando Pessoa: “Falar é a melhor maneira de nos tornarmos desconhecidos”. E todos têm de nós só o que falamos. E o que falamos não é o que somos. Ou não é tudo o que somos. O que sou? Sou um ser espantado de si, do tanto que não sabe de si. E quanto mais falo, menos sei. Só sei que nada sei. Agora me explica como um post que começa convidando a cair na gandaia termina com o socrático “só sei que nada sei”?

© Nota de canapé: Bob Marley em versão antológica do Gilberto Gil. Pode ser ouvida aqui.

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