Recado de primavera ©
Categoria: Literatura

O calendário humano estabelece em 23-set o início da primavera. A primavera mesma, por sua vez, obediente apenas ao seu próprio e imperscrutável calendário, ainda não deu pra valer o recado de sua chegada. Sim, a primavera ainda não se fez visível. Todavia, já se sente no ar um frescor, uma limpeza, um cheiro que deve ser obra dela, sempre muito bem-vinda. Agora é esperar o momento de a terra rir pelas flores, do verde novamente impor-se à paisagem. Os próximos três meses serão tempo de reflorescimento. E a primavera vai cumprir o ofício de explodir em cores a paisagem, devolvendo-nos a beleza que a secura furtou, por longo estio, de nossos olhos. É pena que, humanos distraídos, não cuidemos de apreciar como devia essas belezas sem dono, esse milagre cotidiano com que a natureza nos regala. Urbanos apressados, habitantes de arranha-céus e ambulantes presos em certas gaiolas metálicas sobre rodas, nossos fatigados olhos pouco se espantam com o espetáculo da beleza gratuita. E porque a vida de todos nós se move no compasso da urgência, vamos nos distanciando da dimensão telúrica que nos envolve, vamos perdendo o elo com a nossa identidade primordial. Quero crer que os anos de cidade grande não me roubaram, ainda, o pasmo essencial que sinto diante do belo na natureza. Me, Tarzan. You, Jane?

© Nota de canapé: Crônicas de Rubem Braga.

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Todo dia é dia ©
Categoria: Literatura

Todo dia é dia de agradecer, mas o ser este 21 de setembro o dia mundial da gratidão, torna-o mais que propício para o gesto. Todos os dias tenho motivos para agradecer e não seria diferente hoje. A gratidão maior é por estar vivo, cheio de graça e não menos cheio de garra para viver o que vier. O arco da gratidão é imenso e abrange todos os lances de sorte que o destino – ou isso que chamamos tão descuidadamente de destino – vem dispondo no meu caminho. Na conta da gratidão entram família, amigos, professores e mais a tanta diferente gente que não cessa de encostar suas vidas na minha. “Aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente” (Gonzaguinha). E há que agradecer muito a toda essa gente que cuida da gente, que olha pra gente, que se desperdiça com a gente. Na categoria “Gente que se desperdiça com a gente”, tenho um agradecimento especial a fazer. Falo dos leitores que, não bastando desperdiçarem-se na leitura do que disponho aqui neste recanto, ainda despetalam palavras mais que gentis e generosas na direção deste escriba. Para essa desmesura de atenção, muito obrigado é muito pouco. O sentimento de gratidão é na mesma medida tanto para quem se desperdiçou comigo uma única vez quanto para os que se prodigalizam em repetidos gestos de atenção. Aqui faço um agradecimento geral a todos, mas não dispenso o agradecimento pessoal e intransferível que – salvo alguma mudança de endereço – já terá pousado na caixa de correio de cada um. De minha parte, resta fazer pousar na tela mais um “muito obrigado!”, mesmo sabendo que minha gratidão será sempre maior do que quantos mais “muito-obrigados” eu faça deslizar pela tela.

© Nota de canapé: Livro da escritora Fernanda Duarte que já desfolhei mais de uma vez. Dele digo: livro li(n)do, reli(n)do e recomendado vivamente.

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