Flor de obsessão ©
Categoria: Literatura

[PSiu: Para não ser flagrado em delito de plágio, adianto que pinguei no texto alusões a algumas obsessões verbais do Nelson Rodrigues. Mesmo desaspeadas, os leitores de Nelson as reconhecerão facilmente.]

“O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões” (Nelson Rodrigues). A soma de minhas obsessões por escrito está a uma pá de lavrar aqui neste cercadinho de palavras o canteiro de número 500. Não importa que, tudo somado, o resultado seja quase nada. Desde que me empoleirei nesta tribuna virtual de onde emito meus cacarejos, fiquei refém da minha obsessão em flor. E porque, além de obsessivo, sou também preguiçoso e perfeccionista, sofro da síndrome que batizei de POP: preguiçoso-obsessivo-perfeccionista. Desnecessário dizer que os três lados da síndrome convivem em perfeito desequilíbrio. O perfeccionista acusa o preguiçoso, o preguiçoso acusa o obsessivo e o obsessivo não dá ouvidos a ninguém. E sobra pra mim desadministrar o conflito. Não podendo subir pelas paredes como uma lagartixa profissional, me deixo levar. Tomado de límpido impudor, e a bordo da minha bem-intencionada mediocridade, vou enfileirando nonadas a mancheias na superfície de cadernos e telas. Ponho no que escrevo aquela profundeza que uma formiguinha atravessa, a pé, com água pelas canelas. Sem nenhum pudor da repetição, exercito quase todo dia a santa mediocridade de virtudes e defeitos que carrego como insígnia. Às vezes, tomado de sagrada vaidade autoral, acalento o desejo de que algum dito meu provoque insuportável delícia auditiva. O desejo passa logo e eu logo volto ao tom menor, ao falar baixo, ao pudor autoral que cerca meus escritos. Penso que é justamente essa sobriedade, esse vôo rasteiro que rega a flor de obsessão que sou. O que dá aos meus escritos um mínimo de unidade é a soma de suas repetições. Que o raro leitor entenda e perdoe, mas não há longa conversa sem um belo repertório de repetições. É bem o que disse Machado: “A vida não passa de dois ou três lances que as circunstâncias multiplicam ao infinito”. São esses dois ou três lances que vêm alimentando minha obsessão em flor. Que , talvez, não demore a se fechar num botão de silêncio.

© Nota de canapé: Antologia com as melhores frases do Nelson Rodrigues – seleção e organização de Ruy Castro.

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Um sonho a mais ©
Categoria: Televisão

Inteira razão tem o Nelson Rodrigues: “O homem não nasceu para ser grande. O mínimo de grandeza já o desumaniza. (…) Na vida, o mais importante é o fracasso”. Isso para dizer que, sem me sentir um fracassado, carrego na bagagem alguns fracassos triunfais. Tudo é uma questão de ponto de vista. De um ponto de vista objetivo, não há que negar os fracassos. Do meu ponto de vista, e sem negar-lhes a evidência objetiva, vejo meus fracassos como parte das aventuras quixotescas que tanto gosto de protagonizar. Sou um sonhador. E “se você pode sonhar, você pode fazer” (Walt Disney). Quintana disse assim da mentira: “Mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Eu digo assim do sonho: “Sonho é uma realidade que ainda não se lembrou de acontecer”. Meu mais recente fracasso, e não custa reiterar que se trata de fracasso apenas do ponto de vista objetivo, foi a aventura de publicar um livro. Quixote por natureza, não medi esforços para dar asas a esse sonho. Cuidei de tudo. Cerquei de caprichos o meu sonho. Mas era sonho fadado ao fracasso. Publiquei por uma editora pequena cujo maior empenho é viabilizar sonhos – e como sou grato por isso!! Sendo editora pequena, o esquema de distribuição é nenhum. Escolhi, de saída, o caminho da quase completa invisibilidade. Não vá o raro leitor concluir daí que, houvesse distribuição adequada, eu teria assegurado outro destino que não o da invisibilidade. Não é nada disso. Apenas haveria certeza de que o livro se deu a ver. Nenhuma queixa, no entanto. A experiência serviu para eu concluir: não se ingressa no sistema literário assim, de forma marginal, ao sabor dos lances da sorte. Não! Se se quer, de fato, conquistar um lugar nesse meio, o caminho tem de ser profissional. É o que vou tentar. Se eu não tentar, o não-ingresso já está garantido. A possibilidade de um “sim” virá – ou não – de eu tentar. De modo que o Quixote que há em mim agora cavalga mais esse sonho. E vamos combinar: um sonho a mais não faz mal.

© Nota de canapé: Telenovela de Daniel Más exibida em meados de 1985. Pelo que me lembro, a novela foi um retumbante fracasso.

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