Plumas e paetês ©
Categoria: Televisão

Parte do livro Desgracida, do Dalton Trevisan, compõe-se de algumas mal traçadas… Numa das cartas ele se ocupa em falar mal do Guimarães Rosa. Fico um pouco incomodado com essa disposição para falar mal, o que, quando o malfalado é do mesmo ofício, trai um quê do sentimento menor que é a inveja… Por outro lado, consola saber que os grandes se apequenam no comentário maldoso – e ficamos todos iguais. Dalton (80 anos, já) cultiva uma reclusão que funciona, ao que parece, como uma promoção. Recusando-se a ser fotografado, a dar entrevistas, ele acaba sendo o mais perseguido dos reclusos. Será de caso pensado? Ah, como é bom certa maldadezinha inocente! Só os pequenos podemos nos entregar a esse doce deleite! Os grandes, não! Ou deixam de ser grandes. Pois o Dalton, entre tanta coisa má que falou do Guimarães Rosa, disse isto: “Como sabe enfeitar de plumas e lantejoulas o seu chorrilho de platitudes!” Com o perdão da presunção, era só isso o que eu desejaria para os meus escritos: tê-los sempre enfeitados de plumas e lantejoulas. Se estou condenado a escrever platitudes, que ao menos elas possam ter o atrativo de um enfeitezinho. Gosto de um enfeite, de uma frase de efeito, de visitar os assuntos com a inconstância de um beija-flor. Ser leve, leviano – eis tudo o que quero. Só não sei se posso.

© Nota de canapé: Telenovela lá do fim dos 70 ou início dos 80. Não lembro bem.


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    Edna Freitass
    24 de janeiro de 2012

    Hummm…………. que delícia! ser mau sendo tão bom. seu texto, falando do mal, de um jeito tão bem/bom. parabéns.


    Tarlei
    24 de janeiro de 2012

    Querida Edna,
    obrigado por acolher minha maldadezinha com a sua boa palavra!
    Abs,
    Tarlei






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