Tempo de delicadeza ©
Categoria: Literatura

Delicadeza e discrição vêm se tornando maneiras escassas na paisagem de nossas retinas fatigadas. O que se vê são (doces?) bárbaros comandando o espetáculo do mundo. Tinha razão Oscar Wilde quando dizia: “O mundo pode ser um palco, mas o elenco é um horror”. Mon Dieu, o que fazer? Nada além do que sugere Manuel Bandeira: “só nos resta dançar um tango argentino”. Um dos medos que mais me rondam é precisamente este: o de perder certa delicadeza essencial. Tento uma resistência heróica, mas o mundo convida à barbárie. E repito com Antônio Cícero (filósofo, poeta e letrista): “Será que terei de me tornar um insensível apenas para atender a demanda do mercado atual?”. Sou alguém nostálgico da delicadeza perdida. Procuro um jeito de ser que me torne, sempre que possível, macio. De tal modo que o contato com o outro seja antes um afago e não um duelo de espinhos. Mas não: parecemos porcos-espinhos ásperos e desesperançados. Estou exagerando, como é do meu feitio. O triste é que não é um exagero infundado. Apesar disso, estou longe de ser um desencantado radical. E sei que não faço parte da vibe (leia-se vaibe) do momento. E sei também, ecoando Caetano, que há “diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

© Nota de canapé: É tempo de ler esse livro do poeta, cronista e ensaísta Affonso Romano de Sant’anna.


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