Aqueles dois ©
Categoria: Literatura

Estendi minha fidelidade ao restaurante Green’s, que ia de segunda a sexta, até o almoço do sábado. No sábado gosto de almoçar um pouquinho mais cedo – pouco antes do meio-dia. Eu e um casal simpaticíssimo que me chamou a atenção desde o primeiro almoço. De cara pensei que fossem os dois, Sr. Carlos e Sra. Cecília, pais do dono do restaurante. Desconfiei disso porque todos os funcionários da casa iam falar com eles. E foi isso que perguntei à moça do caixa. Não, não são pais do dono. São clientes normais, fidelíssimos como eu, inclusive quanto ao horário. Encontro-os todo sábado, mas ainda não falei com eles. Gosto mais de observar, de entreouvir conversas, de participar calado – mas atentíssimo. O nome deles descobri graças a uma pequena delicadeza do proprietário. Na mesa que eles ocupam há uma plaquinha: “Reservado. Sr. Carlos e Sra. Cecília”. Achei lindo. Num desses encontros observei que, antes de se servirem, cada qual pede um suco. Ele, abacaxi com hortelã; ela, beterraba. Calculo que eles tenham coisa de 75 anos. Dona Cecília está com uns curativos num dos joelhos. Talvez uma queda acidental. O Sr. Carlos senta-se de costas para mim. Dona Cecília vejo bem. Quando saio, eles ainda nem começaram a se servir. Dona Cecília parece meio dona do lugar: dá ordens (severa sem deixar de ser delicada), manda ligar/desligar ventilador, observa coisas fora do lugar, chama a atenção dos garçons… Melhor dizendo: chama a atenção dos filhos. É um pouco assim que ela os trata; é um pouco assim que os funcionários os tratam – como pais. Tudo muito bonito de se ver. Vendo aqueles dois tão harmoniosos, tão entregues ao apetite de viver, não importando que estejam em pleno crepúsculo e a noite talvez não tarde a chegar, sinto vontade de aplaudir a Senhora Dona Vida coberta de ouro e prata.

© Nota de canapé: Um conto de Caio Fernando Abreu.


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    Edna Freitass
    30 de dezembro de 2011

    Muito querido Tarlei,
    Que delícia de texto!
    Abraços literários procê.
    Inté.
    Edna


    Tarlei
    30 de dezembro de 2011

    Minha querida Edna,
    “Sofro” de um encantamento permanente pela vida — “É a vida. É bonita, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha). Que bom que gostou das duas vidas que eu tentei puxar para dentro das palavras!
    Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Abs,
    Tarlei






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