Se eu quiser falar com Deus ©
Categoria: Música

No divertido filme Deus é brasileiro, de Cacá Diegues, há uma cena em que Deus (Antônio Fagundes) reclama muito de suas errantes criaturas e, no auge da impaciência, solta um incontido e engraçado, vindo de Quem vem: “Chega uma hora em que a Gente se estressa!”. Se eu falasse com Deus o tanto que tenho pra falar, Deus do céu!, o que Deus diria? Falar com Deus implica admitir a sua existência. Nessa questão só deve haver lugar para a fé. A filosofia, embora especule sobre, tem muito pouco a dizer justamente porque o que tem a dizer é forjado na razão. Os mistérios essenciais (a vida, a morte, a alma, Deus, o tempo, a consciência etc.) estão para sempre encerrados em si mesmos. Somos seres do tempo e do espaço – dentro, portanto, do mistério –, e por essa contingência jamais será possível a visão de qualquer totalidade. Para a visão da totalidade seria preciso que estivéssemos fora do tempo e do espaço – e aí já não mais existiríamos como consciência conhecedora. Eis aí configurada uma impossibilidade epistemológica. Mesmo com essa impossibilidade, há argumentos interessantes para a existência de Deus. Descartes usa um argumento simples: o homem, ser finito, falho e imperfeito, não poderia trazer em si uma idéia de infinito e de perfeição, atributos divinos, sem que essa idéia não fosse inspirada por um Deus existente. Belo argumento. Bertrand Russel, lógico, matemático e naturalmente cético, teria sido confrontado com a seguinte provocação: caso a existência de Deus fosse provada, como ele, Russel, um notório cético, reagiria? Sua resposta teria sido: “Ele não nos deu provas suficientes”. Provas lógicas, claro! Para Feuerbach, filósofo alemão, Deus é uma criatura do homem. Quanto a mim, ponho de lado tudo o que disseram e disserem os filósofos todos, e fico apenas com essas palavras do feiticeiro Guimarães Rosa: “Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve”. “Com Deus existindo”, no que também acredito com a força da fé, só uma conversa com Ele para pôr fim à peleja filosófica. Mas, para falar com Deus, era preciso que eu aprendesse a falar apenas com o silêncio. E com o silêncio comunicar o que Deus falasse comigo.

© Nota de canapé: O luminoso Gilberto Gil numa canção das mais iluminadas.


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    shirley
    31 de dezembro de 2011

    Te achei!
    Estou tão feliz de ver tuas palavras cravadas neste espaço!
    Amei tudo que li até aqui. Esteja certo de que vou ler mais ainda.
    Te admiro muito e desejo muito sucesso em tudo que empreenderes.
    Te achei por acaso, como me parece ser por acaso todo o teu proceder, assim como quem não quer nada. Ôh minininho danado!


    Tarlei
    31 de dezembro de 2011

    Shirley,
    Que palavras gentis! Muito obrigado!
    Minha admiração por você se soma à enorme gratidão pela participação em momento crucial da minha vida profissional.
    É, você tem razão: sempre preferi a rota dos discretos percursos. E graças a eles o acaso das surpresas fica muito mais saboroso.
    Ecoando o seu carinhoso “Ôh minininho danado”, acrescento que sou um “homenino” danado de encantado com a vida.
    Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Abs,
    Tarlei






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