A máquina do mundo ©
Categoria: Literatura
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O que mais tenho feito na vida é ler e escrever, por prazer e por obrigação profissional. Gosto dessa sina de escriturário, sobretudo porque desviei a escrituração para outros domínios que não apenas o da atividade bancária. No entanto, a sina de leitorário é a que mais me alegra. A alegria leitorária do momento é um livro triste, crepuscular, nublado… Chama-se Mano, a noite está velha. O autor é o paranaense Wilson Bueno, morto em maio do ano passado e o que escrevi sobre a morte dele está aqui. O livro é estruturado na forma de uma longa conversa com o irmão já morto e é perpassado por doloridas confissões de alguém (um homem de 60 anos) a caminho do ocaso e infeliz.

Toda essa lengalenga apenas para transcrever certo trecho do livro com o qual me identifiquei por inteiro. Eis: “Dizem que, depois da Internet, ninguém mais escreve cartas, Mano. Eu é que não vou me envolver, a essas alturas da vida, com essas máquinas tresloucadas. E nem preciso delas, dispensáveis em meu cotidiano que necessita apenas uma caneta ou um lápis, cadernos, papéis (…)”.

Adorei o “máquinas tresloucadas”. E se é verdade que piloto uma dessas máquinas todos os dias úteis durante oito intermináveis horas – sem contar as horas domésticas em que nos desperdiçamos à frente de tais máquinas –, não é menos verdade que minhas reais necessidades passam longe desses objetos estranhos aos quais a gente estranhamente se afeiçoa.

O que resta perguntar é: o que será de mim, bicho graciliano a bordo da cada vez mais tresloucada máquina do mundo?

© Nota de canapé: Poema essencial da lavra de Drummond em que ele faz a mais profunda mineração de si.

PSiu: Creio que o neologismo leitorário é meu mesmo.


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    Eudes Arduini
    13 de dezembro de 2011

    Tarloi (este seria seu nome em francês. Lei = Loi), eu me rendi há muito tempo a essas máquinas, infelizmente. Mas não me sinto involuído por isso. Leio muito mais hoje do que quando havia mais papel e menos bytes em minha vida. Claro que a leitura é mais breve, resenhada, aleatória, volátil e quase nada clássica, mas, se o computador deixasse de existir de repente, eu talvez não me voltasse aos livros, malheureusement…


    Tarlei
    14 de dezembro de 2011

    Amigo Eudes,
    Repare que eu não me oponho às tais “máquinas tresloucadas”. Gosto de dizer que a Internet é uma mão na rede. A minha relação com a leitura é de mergulho. E sobre a leitura em tela você disse tudo: aleatória e volátil. Apesar de não termos tanta diferença de idade, sinto que você conseguiu o salto evolutivo para a Geração Y. Eu fiquei preso à geração X. Por conta disso, e sem que isso configure qualquer juízo de valor, se o computador deixasse de existir, eu certamente leria mais.
    Obrigado pelo comentário!
    Abs,
    Tarlei






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