Meu professor inesquecível ©
Categoria: Literatura

Certa vez a escritora Nélida Piñon resumiu assim a impossibilidade de delimitar a importância de tantos criadores na sua trajetória de também criadora: “Eu devo tudo a todos”. Sou tentado a dizer o mesmo para assinalar o tamanho da gratidão que tenho por tantas pessoas fundamentais que encostaram suas vidas na minha, ainda que por breve percurso. Entre todos, os professores estão na linha de frente. Menino pobre e tímido, mas muito curioso e interessado, fui caminhando graças à atitude generosa de professores que viam em mim uma capacidade que eu não via – e não vejo. Mas pensava: se eles vêem, vou em frente. A voz de muitos era: você tem de seguir nos estudos, você tem de se mudar de Buriti Alegre. E lá fui eu tentar o impossível que se fez possível. Essas palavras poucas são apenas para dizer o quanto devo a todos os professores, cicerones dos viajantes afoitos que somos.

Meu primeiríssimo contato com o mundo da escola se deu em nível informal. A professora era a Dona Osória – já de certa idade, talvez aposentada –, que se dedicava ao ofício de iniciar no sortilégio das primeiras letras os que ainda não tinham idade para freqüentar escola regular. E deve ter sido por instâncias minhas que lá fui parar. Além do nome da professora e da casa em que morava, não tenho quase nenhuma memória dessa experiência. Esse marco inaugural parece não ter sido bem-sucedido pois, até onde me lembro, não saí de lá alfabetizado, fosse pela minha curta permanência, fosse pela ineficácia pedagógica. Nem por isso é menor minha gratidão à professora Osória.

O aparente insucesso no primeiro encontro com as letras não anunciava, por certo, a profunda identificação que mais tarde eu viria a ter com o mundo encantado das palavras.

Na ponta mais recente da linha do tempo está a professora Hilda Lontra. Encontrei-a quando eu já era de muito tempo um leitor apaixonado. E por ser já um leitor apaixonado, pus em dúvida o proveito que poderia me trazer um curso de especialização em Leitura, Análise e Produção de Textos, oferecido pela Universidade de Brasília. Com o pêndulo da dúvida martelando um insistente “faço ou não faço?”, fui assistir à aula inaugural do curso. Quando cheguei já encontrei a professora Hilda falando. E falava tão apaixonadamente que era impossível não aderir àquela paixão. Não tive mais nenhuma dúvida. O curso foi um maravilhoso acerto, não apenas pelo que me acrescentou à condição de leitor apaixonado, mas pela oportunidade de partilhar um (breve) percurso na companhia de alguém em quem divisei o maior exemplo de paixão e de entrega a um ofício.

Ao deixar o meu comovido agradecimento à professora Osória e à professora Hilda, desejaria que minhas palavras, por uma magia qualquer, percorressem o enorme fio que se estende entre uma professora e outra e chegassem ao coração de cada um dos outros tantos professores que tive, todos eles inesquecidos no meu sentimento de gratidão.

Para completar a homenagem, eu não poderia deixar de mencionar um professor por quem me apaixonei a partir das palavras agradecidas e profundamente emocionadas de um de seus alunos – o escritor, roteirista e dramaturgo Alcione Araújo. Comovo-me até às lágrimas sempre que leio as palavras do Alcione Araújo na magnífica crônica Mestre, que está no livro Urgente é a vida e pode ser lida aqui.

 

© Nota de canapé: Livro organizado pela escritora e pedagoga Fanny Abramovich. O livro traz textos belíssimos de Marina Colasanti, Bartolomeu Campos de Queirós, Marcos Rey, Ana Maria Machado, Ivan Angelo, da própria Fanny Abramovich, entre outros. Imperdível!


(2)


    Hilda
    16 de outubro de 2011

    Querido Tarlei,
    cuida-te muito, muito mesmo, porque tu és IMPRESCINDÍVEL no mundo em que vivemos. Sem ti, o mundo seria muito mais sombrio e triste.
    Um beijo,
    Hilda


    Tarlei
    16 de outubro de 2011

    Profª Hilda,
    Desde o ano passado estou com um exemplar do livro “Meu professor inesquecível” para entregar a você. A pressa nossa de todo dia me fez adiar até hoje a entrega do livro. Vou dar um jeito de , ainda durante a semana, cumprir com alegria mais esse rito de agradecimento. No livro, que está aqui do meu lado, pus estas palavras: “Entre tantos professores que tive no meu já longo percurso de aprendiz, há uma que, além de ensinar, exerce o mágico ofício de polinizar almas”.
    Muitíssimo obrigado por tudo!
    Um beijo,
    Tarlei






© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress