Fotografei você na minha Rolleyflex ©
Categoria: Literatura

A existência desse puxadinho virtual, no qual venho perpetrando nonadas a três por quatro, deve muitíssimo a uma amiga que hoje aniversaria. Fiz a ela um breve agradecimento lá nos primórdios do blog. Sendo uma amiga das mais especiais, sinto que é meu dever de amigo torná-la mais visível para o raro leitor, ainda que ao preço de revelá-la a partir do meu olhar sempre impreciso. Conto apenas que o carinho verdadeiro compense as imprecisões mais flagrantes. Eis o que capturou minha Rolleyflex:

Soninha, apesar do que sugere o diminutivo carinhoso, é alta. Alta e desconfiada. Desconfia de tudo e de todos. Segue desconfiando até que tenha provas bastantes de que se trata de uma amizade que vale a pena cultivar. Quem consegue transpor o limiar da desconfiança está no céu com diamantes. É o melhor papo que conheço. Em nome dele, sacrifica o que for preciso: fome, sono e outras irrelevâncias. Professora universitária há anos, com ela aprendo um pouco de exagero, muito de bom-humor e tudo de entrega apaixonada ao que faz… Dona de um raciocínio velocíssimo, não economiza os rompantes de impaciência quando tem de lidar com a lentidão de certos interlocutores – um em especial. É capaz de pegar o raciocínio alheio e dar nele mil e uma voltas, enredando o dono do raciocínio, aparentemente seguro de sua lógica, nos mil e um labirintos da contradição. Contrapõe uma lógica cortante com uma imprevisibilidade quântica e freqüentemente põe no semblante dos interlocutores a interjeição: ‘ahn??!!’. A bordo de uma lógica que não admite discussão, jamais dá o braço a torcer, exceção feita aos casos em que aceita um recuo estratégico tendo em mira um novo e certeiro avanço. Perdulária ao extremo, não guarda nada do que escreve ou diz, sabedora, por certo, do manancial inesgotável que tem – justo o contrário de outros que, incertos quanto aos próprios cabedais, arquivam tudo, de uma vírgula a um suspiro. É sóbria nos trajes e na maquiagem, mas às vezes tem de sacrificar a sobriedade e envergar um casaco de pele, tal o frio que transforma certos ambientes em verdadeiros enclaves siberianos. Adora as peripécias humanas a ponto de colocar as de uma certa mãe à altura dos maiores talentos na arte de atuar. Tem o dom de ver comédia onde outros só vêem drama. Transita com extrema desenvoltura nos domínios da química, da informática e – surpresa! – da psicologia transpessoal. Transita com igual desenvoltura por aeroportos, por vezes ignorando os obstáculos que se lhe antepõem no caminho, sobretudo se espelhados. No fundo bem fundo do fundo, é uma graça de pessoa. Só não lhe provoquem o curto estopim. E antes que a última frase seja lida como uma provocação, convém repetir: é uma graça de pessoa. E isso se descobre muito antes de ir ao fundo mais fundo do fundo. Basta olhar para o seu rosto quase sempre aberto em gargalhadas.”

 

 

© Nota de canapé: Livro de crônicas da cantora e compositora Joyce Moreno.


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