A caverna ©
Categoria: Literatura

 

Sou um primata dos mais primitivos, a julgar por certos hábitos que mantenho. Manuscrever, por exemplo. Essa prática deveria ficar restrita a situações excepcionais, extremas. No meu caso, escrever diretamente no teclado é que configura uma situação extrema. Perco tempo, eu sei. Mas é preferível isso do que perder o rumo do texto. É o que me acontece.

Perto do que é o frenesi por novas tecnologias, vivo ainda numa caverna quase pré-tecnológica com rendição mínima ao imperativo que diz “você tem de ter”. Se você se rende, estará preso para sempre na obsolescência velocíssima de qualquer traquitana digital. A custo cheguei ao celular. Não sei se chego ao iPad.

Sinto que estou ultrapassado ao conservar o hábito de manuscrever, ainda mais quando se pressente que o próprio hábito de digitar está em jogo. Parece que o que se anuncia é a invasão do touch screen. Tudo funcionará à base do toque – e o toque humano essencial vai escasseando. O resultado da evolução tecnológica é uma involução das habilidades humanas. “A vida é uma sinuca / Mas confio no meu taco”. E digo: “Pára o mundo que eu quero descer”. E bato o pé pelo meu direito de continuar primitivo. Manuscrever, para mim, continua sendo “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”.

 

© Nota de canapé: Livro do nosso Nobel José Saramago (1922 / 2010).


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    alexandra
    21 de novembro de 2011

    Querido Tarlei,

    amei sua escritura! E assino embaixo, em cima, por todo lado: Manuscrever é, também para mim, “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”.
    Vivemos a página mineral, nas cavernas, a página digital, no séc. XXI, passando pela página de papel, de papiro, de barro, de areia e tantas outras. A de papel ainda é a que mais me seduz!
    Amamos escrever, escrevinhar, escreviver. Somos escritos pela escrita. E não prescindimos da sua artesania.

    Espero que você continue esculpindo sua humanidade no barro da palavra… manuscrevendo a vida!

    Beijos,
    Alexandra


    Tarlei
    21 de novembro de 2011

    Querida Alexandra,
    cada comentário seu me enche de espanto e de gratidão! Minha humildade cresce a cada vez que leio suas palavras esculpidas no barro da generosidade.
    Muito obrigado!
    Beijos,
    Tarlei


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    Alexandra e Tarlei, dupla de se tirar o chapéu ou a cartola, de se dobrar em reverências japonesas e tudo o mais que se possa fazer para reverenciar alguém.
    Chapeau!!
    A propósito, “A Caverna” é um dos livros de que mais gostei do Saramago, meu outro autor predileto (rs). Por ter estado absorvida na leitura de um livro dele, perdi um voo internacional. Espero não perder meu próximo voo por um dos seus livros… Confesso que terei que estar muito atenta, coisa que você já me sugeriu que não sou. Mas, é engano seu.


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    Ângela,
    por favor, não se sinta melindrada com a sugestão de ser distraída — sugestão que você julga que lhe atribuí. Minha identificação é total com a estirpe dos distraídos, dos despassarados, dos “seres escalenos” (Manoel de Barros). E se não for muita pretensão minha, julgo pertencer a essa estirpe.
    Abs,
    Tarlei






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