Milagrário pessoal ©
Categoria: Literatura

Sou um menino (passe o menino) que não cessa de espantar-se com o quanto a vida lhe tem sido generosa. A memória guarda um tanto de acontecimentos, todos destinados ao que eu chamaria de pequeno milagrário pessoal. Veja:

a) fui menino de brincar na rua, subir em árvores etc. No quintal da nossa casa havia uma mangueira bem alta. Pois estava eu lá nas grimpas dela quando os galhos (de cima e de baixo) se quebraram. No trajeto da queda a espera pelo pior. Uma prosaica cerca de arame farpado amorteceu-me a queda, rendendo-me apenas uns arranhões nas costas. Quando vieram me socorrer, já estava de pé, feições surpresas com o milagre que acabava de me acontecer;

b) aprendi a soletrar de medo. Tinha uma professora muito brava. Na hora da soletração, ia vendo os colegas indo para o castigo. Na minha vez, diante da palavra “fubá”, de puro medo e susto, consegui balbuciar um quase inaudível “fuba”. Fui salvo do castigo – e da vergonha;

c) entrar para um banco estatal, antes de ser um desejo, era uma necessidade premente. Minhas desvantagens eram muitas: escolarização precária, sem dinheiro para cursinho, pouco tempo para estudar… A meu favor só a vontade de vencer o desafio – e foi o que fez a diferença. Quando recebi o primeiro salário, foi uma festa. De cara o que recebi equivalia a uns dez salários mínimos. Isso me faz lembrar uma historinha. Contam que a novelista Janete Clair teve uma ascensão financeira muito rápida. Aí alguém cunhou essa frase maledicente: “Janete Clair se mudou tão rápido de Bangu para o Leblon que nem deu tempo de tirar o pingüim da geladeira”. Tive uma ascensão parecida e tratei logo de comprar geladeira – o pingüim veio depois;

d) leitor que mal tinha dado os primeiros passos no caminho da leitura e impressionado com um livro da escritora Nélida Piñon, decidi que escreveria a ela. Não contava que ela fosse responder, o que não me fez refrear o sagrado ímpeto juvenil que me animava. Mais que responder, recebo dela um telefonema. O resto está contado aqui;

e) o blog tinha tudo pra ser mais um desejo abortado. Pela minha preguiça com a tecnologia, pela minha falta de jeito com a informática, pelo perfeccionismo, pela mania de querer fazer tudo (sou um contínuo de mim mesmo) – era mais que provável que nada acontecesse. E no entanto aqui está ele.

f) num período em que trabalhava feito um remador de Ben-Hur, calhou de eu me atrever a fazer uma pós lato sensu em Filosofia e outra em Letras, ambas na Unb. Quase poderia repetir aquela conhecida frase: “Não sabendo que era impossível, fui lá e fiz”. A frase vale especialmente para a pós em Filosofia. Como sofri! Tinha aula sexta à noite e sábado o dia todo. Anotava febrilmente tudo. Uma maratona. Depois dessa maratona, tirei de letra a pós em Letras.

Haverá outro lugar para esses acontecimentos que não um milágrário pessoal?

© Nota de canapé: Livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa.


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