O elo partido ©
Categoria: Literatura

 

Em matéria de tecnologia, fiquei preso em algum ponto impreciso do passado. Sou uma espécie de elo partido – e perdido. Espio tudo como um matuto desconfiado. Sinta o descompasso: tudo muda em velocidade de trem-bala. Eu ainda estou a bordo, e feliz, de uma Maria-fumaça, e resisto quanto posso ao aprisionamento tecnológico capitaneado pelas redes sociais, ao qual tantos incautos se entregam.

Minha experiência com as redes sociais é mínima, mas já deu para observar alguma coisa. O que de imediato se percebe é que quem está na Internet está sozinho. O que há são vastas solidões coletivas interconectadas. Conexão é tudo. Quanto mais conexão, mais solidão, o que não abala o mantra tecnológico “conexão é tudo” – tanto que já se fala em computação ubíqua. O destino de todas as coisas (TV, geladeira etc.) será conectar-se à rede. Quem está só, quem se conecta, quer atenção. Mas não haverá atenção que dê conta dessa legião de sozinhos. Afinal, “hoje, cada ser humano conectado à rede é uma miniempresa de comunicação de si mesmo, atrás de atenção” (Antônio Prata). O que se vê nas redes sociais é um monte de navegantes solitários despejando pixels no grande mar da rede. A esperança é de que na beira do grande mar haja um outro navegante solitário que, entre zilhões de pixels, resolva pescar justo o seu. Porque, diferente dos peixes do mar – que tudo o que querem é permanecer no mar –, tudo o que os pixels desejam é serem pescados por alguma atenção. A realidade é que a imensíssima maioria dos pixels está condenada à invisibilidade ou a uns mínimos cliques de consolação. Eu mesmo olho para o desfile sem fim de pixels e quase sempre recolho o anzol da minha atenção sem nada ter pescado. Isso é tudo.

 

© Nota de canapé: Excelente conto do escritor mineiro Otto Lara Resende (1922 / 1992) e título de um de seus livros.


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