Escreviver ©
Categoria: Literatura

 

Li uma crônica deliciosa do João Ubaldo Ribeiro em que ele conta a “filosofia” de vida de um certo amigo (imaginário?) morador da Ilha de Itaparica. Para esse amigo, tudo que se pretende fazer deve antes ser submetido a essas perguntas: “Dá labuta? Dá aporrinhação?”. Uma única resposta “sim” é bastante para a decisão inapelável: “Então, tô fora”. Quem dera pudéssemos levar a vida assim. A própria vida dá labuta, dá aporrinhação – e é difícil encontrar quem queira sair fora do círculo da vida. Seria o caso de dizermos assim: “Não contando a própria vida, que é um desfile incessante de labutas e aporrinhações, não quero saber de mais nada que dê labuta e aporrinhação”. Mesmo isso não é possível e a margem que sobra para se aplicar tal “filosofia” é bem pequena. Seria o caso de, isto sim, procurarmos evitar o que dê demasiada labuta, demasiada aporrinhação. Isso eu faço bem – acho. Preciso dizer que escrever esses textos mínimos dá uma certa labuta. Devo dizer, também, que “(…) gosto de ser recolhido pelas palavras” (Manoel de Barros), gosto dessa escrita beija-flor que voeja inconstante por vários assuntos. Pudesse, viveria para escrever. Não podendo, o jeito é escreviver. A recompensa pra esse regime de escrivatura? Os elogios que os amigos generosos deixam pingar, com alguma constância, no pires da minha humildade.

 

© Nota de canapé: Livro de José Lino Grünewald (1931 / 2000).


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