Confissões de adolescentes ©
Categoria: Teatro

 

Dia desses, no ônibus a caminho da Livraria Cultura, algazarra alegre de um bando de adolescentes. Sou capturado por quatro deles, os que mais falam: três garotos (um bem branco, um branco, um negro) e uma garota (nissei, não sei bem). É gostoso ver o quanto a vida pulsa neles com aquela vibração espontânea que os adultos já perdemos. O arco da conversa – animada, apaixonada – inclui genética, xenofobia, mangá, judô, viagens, Budapeste e muita coisa mais que não registrei. Fico completamente tomado por cenas assim, em que a vida vibra plena, grávida do novo, do indescoberto… Dava gosto colher o que eles viviam ali, ao vivo, entregues ao exercício da descoberta do outro, de si, do mundo, de tudo… A vida que vibra neles irradia para fora do “círculo de giz narcísico que os contém” (Affonso Romano de Sant’anna) e contagia todos ao redor. Os que estamos de fora temos de nos contentar com o que eles, perdulários, entornam para além de si mesmos. Não há lugar para adultos nesse círculo. Eles, os jovens, são o centro, o sol… E faz bem receber os raios de vida que eles emanam com espantosa prodigalidade. “É a vida. É bonita, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha).

 

© Nota de canapé: Peça de teatro de enorme sucesso nos anos 90, com direção de Domingos de Oliveira. Depois virou livro e série de TV.


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