O mundo não é chato ©
Categoria: Literatura

 

O mundo, em seu conjunto de horror e maravilha, pode não ser chato. Mas, no imenso arco que vai do horror à maravilha, quanta chatice há pelo caminho! Tento um pequeno inventário daquelas que mais me incomodam. Chata qualquer fila, chatos os mal-humorados de qualquer fila, mais chatos ainda os bem-humorados no extremo desconforto de qualquer fila, chatas as atendentes mal-humoradas de qualquer lugar, chatos os clientes bem-humorados que tentam uma intimidade forçada com as atendentes, chatos os que falam alto, chatos os que falam baixo, chatas as telefonistas que perguntam “Quem gostaria?”, chatos todos os operadores de telemarketing que vão estar oferecendo alguma coisa imperdível que você jamais quererá, chatos os entregadores de folder de qualquer espécie, chatos os torcedores fanáticos de qualquer time (em especial os do Flamengo, que me fizeram passar enorme apuro no Rio), chatas as celebridades ocas que faíscam sua desimportância nas ondas da TV, chata a televisão com seu interminável cortejo de mediocridade, chata a velocidade que rege o mundo da tecnologia e que torna obsoleto hoje o que ontem era novidade (desembarquei há tempos do trem da tecnologia), chato quem se dispõe a escrever sobre a chatice nossa de cada dia.

 

© Nota de canapé: Título de uma seleta de artigos de Caetano Veloso organizada por Eucanaã Ferraz.


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