Os sonhos não envelhecem ©
Categoria: Literatura

 

Uma amiga me mandou há muito tempo um lindíssimo poema, que eu não conhecia, chamado O vôo, de Menotti Del Picchia. Sabia da participação do autor na Semana de Arte Moderna, mas nada havia lido dele – e minha leitura continua restrita a esse único poema. Tão lindo o poema que o que vai adiante (em itálico) é uma apropriação livre e despudorada dele – tão despudorada que dispenso as aspas.

Não sei viver sem me entregar à euforia do vôo, mesmo pressentindo que o destino de todo vôo é desabar no abismo. Que sabemos nós do fim? Se no fim de tudo houver uma noite, quero enchê-la de estrelas. Não quero perder a ilusão de que o meu vôo me levará sempre para o mais alto. E se eu acaso pressentir que amanhã estarei mudo, o que quero hoje é esgotar, como um pássaro, as canções que tenho na garganta. Quem sabe se, cantando, não faço adormecer as feras que esperam me devorar? Desde que nasci não sou mais do que um vôo no tempo. Rumo a quê? Não importa a rota. Apenas quero voar e cantar, enquanto resistirem as asas e a garganta.

Para mim, voar e sonhar habitam a mesma asa. Não sou muito bom de “fazimentos”. Sou ótimo de “sonhamentos”. Talvez esteja no caminho certo. Os “fazimentos”, porque compõem o domínio do concreto, pertencem ao reino das coisas findas. Os “sonhamentos”, sendo da esfera do abstrato, pertencem ao reino das coisas infindas. É por isso que os sonhos não envelhecem. E se eu acaso estiver sonhando muito, que ninguém ouse me acordar!

 

© Nota de canapé: Livro de Márcio Borges, além de verso da lindíssima canção Clube da esquina II, parceria de Lô Borges, Márcio Borges e Mílton Nascimento.


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