O aprendiz de feiticeiro ©
Categoria: Literatura

 

Guimarães Rosa, pelos prodígios insuperáveis de uma prosa encantada, ficou sendo, para muitos, o feiticeiro das palavras. Sou alguém tomado pelo feitiço das palavras. Vivo sob o sortilégio delas. Por mais que me devote a frequentá-las com renovado assombro diante da força que têm, minha relação com elas será sempre de aprendiz. Fico sendo, então, e para sempre, um aprendiz de feiticeiro. E não há possibilidade de eu sair dessa condição. A condição de aprendiz me cai muito bem porque o que quero é o descompromisso, é o gosto de, errando o mais das vezes, acertar sem querer um belo alvo. Penso nas palavras como poderosas células-tronco: se transformam em tudo que se queira. Mas esse efeito só é possível pelas mãos de um hábil manipulador de palavras. E não é uma tarefa fácil. As palavras também têm seus caprichos. A sina de ser um feiticeiro das palavras não é uma conquista. É, antes, uma predestinação, uma danação. Já não se é mais dono das palavras e, sim, um escravo delas. Um aprendiz de feiticeiro pode brincar, desistir, voltar atrás, retomar a brincadeira, tudo ao sabor de suas vicissitudes. Um aprendiz de feiticeiro fica com as palavras. Um feiticeiro é escravo do amor por elas. Prefiro ficar. Não consigo escrever em cativeiro.

 

© Nota de canapé: Livro do Mario Quintana (1906 / 1994). É o preferido de muitos de seus admiradores.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress