Baú de espantos ©
Categoria: Literatura

Nunca fui aluno exemplar, mas também nunca deixei de me dedicar minimamente. Houve um tempo em que eu tinha facilidade para o aprendizado. Hoje tenho incrível facilidade para o esquecimento. Naquele tempo, às vezes um mínimo de dedicação era suficiente para eu me destacar. E não vou negar que eu tinha um quê de competitivo: queria me alinhar aos melhores. Embora aluno relapso, tinha excelente desempenho – façanha tão fácil quanto fácil era o nível de ensino. Lembro um episódio do 1º ano do curso Técnico em Contabilidade. Tinha eu indóceis 15 anos. Por alguma arruaça que a turma tinha protagonizado, lá veio o diretor, Eduardo, dar-nos um sermão. Reduziu-nos todos a nada: irresponsáveis, indisciplinados, desordeiros etc., etc., etc. E para fechar o sermão, fez questão de dizer que, naquela turma, não havia ninguém capaz de um desempenho de que a escola pudesse se orgulhar – no que pareciam estar todos de acordo –, acrescentando ao sermão a frase que cobriu de espanto meus infatigados olhos adolescentes: ninguém era capaz, com uma única exceção. A exceção, acredite, era eu, inteiramente tomado pelo espanto. Embora aquela inesperada frase tenha me atirado do chão ao céu, eu não me sentia digno daquela distinção. E às vezes o elogio tem efeitos perversos: eu tinha de corresponder, em alguma medida, àquela aposta em mim, tão gratuita quanto descabida. Não sei dizer se correspondi. Sei que carreguei aquele invisível triunfo vida afora e sempre que sentia a inteligência claudicar agarrava-me a ele. Depois veio o tempo irremediável de uma inteligência que já não responde a mais nada. No entanto, aquele triunfo adolescente foi para o estojo das coisas para nunca imêmores – e que me lembre, nunca o havia aberto para ninguém. Ainda hoje é esse longínquo triunfo que me consola das derrapagens, cada vez mais frequentes, da inteligência. “É a vida. É bonita, é bonita e é bonita”.

 

© Nota de canapé: Livro do Mario Quintana (1906 / 1994).


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