Crônicos ©
Categoria: Literatura

A regularidade com que venho escrevendo me habilita a alinhar-me na fileira dos escreventes crônicos. Está virando um ritual: mal termino a leitura de toda manhã, empunho o lápis e me concentro para botar no papel o “ovo” do dia. Nenhum assunto pensado. Tudo é feito na hora, no susto, no improviso… Luís Fernando Veríssimo, falando da dureza de escrever uma crônica diária, diz que se sente como uma galinha que tem de botar um ovo por dia. Comparar o cronista a uma galinha poedeira diz tudo sobre a regularidade e a dificuldade desse ofício. A crônica e o ovo são um assombro da inteligência e da natureza, respectivamente. Não é à toa que a crônica é o xodó do leitorado. Impossível resistir aos seus encantos. Eu mesmo sou um “cronólatra” anônimo. E para o “ovo” do dia, me inspirei no que escreveu Fernando Sabino numa comovente crônica: “Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica”. Embora meu olhar tenha sido para o modo de se fazer crônica, o cronista Sabino e sabido está certíssimo: o que merece ser escrito está fora de nós. E escrever é uma tentativa de agarrar os acontecimentos com a palavra.

© Nota de canapé: Livro da escritora Daniela Abade.


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