Ave, palavra ©
Categoria: Literatura

 

A grande Adélia Prado está hoje em Brasília participando do projeto Escritores Brasileiros, que acontece no CCBB. A palavra de Adélia me toca profundamente. Minha admiração por ela e sua poesia vem de longe. Nessa trajetória de admiração há um acontecimento marcante: a participação de Adélia na Flip de 2006. Eu estava lá. Tive oportunidade de contar a alguns amigos o efeito das palavras de Adélia sobre mim e sobre todos os outros (isso eu só soube depois!) que partilharam aquela emoção única. Divido com o raro leitor as palavras (poucas) que escrevi no calor da emoção:

Agora Adélia: a palestra me arrombou o coração. Lutei o quanto pude com as lágrimas. E pude muito pouco. Eu e muita gente. A humanidade de Adélia me assombra. A gente fica desarmado, todo à flor da pele. Não é a primeira vez que ouço Adélia, mas dessa vez o bisturi foi fundo, muito fundo. Não havia blindagem que nos protegesse. ‘Chorei até ficar com dó de mim’. A emoção tomou conta de todos. Ao meu lado, uma pessoa chorava de se assoar. Não tive coragem de repartir com ela o meu pranto. Há emoções que pedem recolhimento. Adélia terminou aplaudida de pé. Eu, por mim, aplaudiria de joelhos. Bendita Adélia!”

O que foi que Adélia Prado disse? Não guardo detalhes, só a sensação. O tom da palestra foi o de lembrar a miserabilidade da nossa condição humana. Daí precisarmos todos de misericórdia. E de beleza. A beleza – venha ela da arte, da natureza, da fé, de onde quer que seja – é a nossa possível redenção. E Adélia diz – emocionada, veemente, plena de santidade humana: ‘Beleza não é luxo. É ne-ces-si-da-de.’ As palavras de Adélia me fisgam de um jeito tal que não sei explicar. Não adianta tentar. Sei apenas que minha humanidade cresce toda vez que ouço Adélia. Dói saber que somos frágeis badulaques. Mas anima saber que, embora frágeis, somos capazes de prodígios surpreendentes. Essa condição miserável faz lembrar que o homem será sempre esse bicho da terra tão pequeno! E, por isso, às vezes tão milagrosamente grande.”

Não sei falar muito daquilo que me toca profundamente. Adélia, ao falar, tem o dom de instaurar uma atmosfera religiosa (no sentido de religação) que enreda todo mundo. O que conta não é o que ela diz, mas a unção com que ela o diz. Rubem Alves vive citando Adélia, sem parar. Adélia tem um quê de grande mãe doando palavras de imensa sabedoria e compaixão a tantos de seus filhos perdidos de si mesmos. As palavras de Adélia põem em relevo nossos desvãos, não para condená-los, mas para não esquecermos de nossa condição miserável. Se esquecemos isso, ficamos facilmente reféns da arrogância, da intolerância e de tantos outros males que roubam a nossa humanidade essencial. Sempre que ouço Adélia, choro – choro por mim e por todos nós.”

Não perco por nada a oportunidade de mais um encontro com a palavra de Adélia. E, se eu fosse você, também não perderia.

 

© Nota de canapé: Livro póstumo de Guimarães Rosa, o feiticeiro-mor das palavras, organizado por Paulo Rónai.


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    Monica Pinheiro
    14 de setembro de 2011

    Acho que pertencemos à mesma tribo invisível, de seguidores dessa mineira de coração universal. Entendo perfeitamente quando você diz “Sempre que ouço Adélia, choro – choro por mim e por todos nós”. Vivi muitos anos longe do Brasil e, quando batia a saudade de casa, pegava um livro qualquer da Adélia (meu preferido ainda é o primeiro, Bagagem) e me punha a ler… e a chorar… a ler… e a chorar… De repente, me cansava daquilo tudo, fechava o livro e pronto. Sentia-me renovada e feliz. Que mulherzinha danada de poderosa, essa Adélia!


    Tarlei
    14 de setembro de 2011

    Monica,
    Acabo de chegar do encontro com Adélia. Tive oportunidade de dar-lhe um emocionado abraço. Adélia é um convite vivo para o que sabiamente diz Guimarães Rosa: “É preciso sentir até tirar as cascas da alma”. E toda razão tem Drummond: “Adélia é lírica, bíblica, existencial”. Foi uma noite mágica. Adélia falou, Adélia leu, Adélia riu, Adélia chorou, Adélia deixou-nos mais perto de nós mesmos.
    Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Abs,
    Tarlei






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