Concerto a céu aberto para solos de ave ©
Categoria: Literatura

 

Brasília é cheia de espaços inabitados. Essas vastidões a céu aberto costumam dar a impressão de solidão, que fica muito evidente nos fins de semana e feriados. Com o socorro dos shoppings, essa solidão se desvanece um pouco. A minha vida de fim de semana (e eventuais feriados em que fico por aqui) se passa toda ela nos shoppings (não que eu goste, é a necessidade), do café da manhã ao jantar. Entre o café e o jantar, há o cineminha, a leitura de jornais, a lavanderia, até a escrita de um trabalho acadêmico se passou quase toda ela num shopping vizinho de casa. Posso dizer então que nos fins de semana o shopping é minha primeira casa, do mesmo modo que o trabalho é a primeira casa durante a semana. Tudo isso dito assim sem enfeite nenhum pode sugerir que tenho uma vida horrível. Pode até ser que seja – mas o que importa mesmo é como eu a sinto. E sinto que tenho uma vida maravilhosa. É que nas frestas dessa aparente sem-gracice há tantas rosinhas flores povoando o meu dia que às vezes nem acredito!… Esses tesouros íntimos a gente não costuma dividir (somos avaros, às vezes) e aqui não faço mais que aludir a eles. Termino com uma frase dita (dizem) por Wittgenstein. Contam que ele abriu mão de toda a fortuna herdada (repassou-a aos irmãos) e foi viver franciscanamente numa cabana nas estepes da Noruega. Eis a frase: “Diga-lhes que tive uma vida maravilhosa”. Não quero parecer mórbido, mas fico tentado a usar essa frase como epitáfio.

 

© Nota de canapé: Livro do grande poeta sul-matogrossense Manoel de Barros que, do alto dos seus 90 anos, vive o esplendor da terceira infância.


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