Pássaros de voo curto ©
Categoria: Literatura

 

Por que é que eu demorei tanto a descobrir como funciono? É aquela velha pretensão de todo escrevente de fazer textos longos, elaborados, profundos… Antes tarde do que nunca. Agora sei de certeza certa que fui talhado para as miudezas, para o ordinário (nas dobras do ordinário pode estar o extraordinário), para a vida ao rés-do-chão. Sou pássaro de voo curto que não sabe voar para longe de si mesmo. E se não consigo abdicar da ancoragem biográfica em tudo que escrevo, que eu consiga pôr no que escrevo um pouquinho de arte – a arte que sustenta a vida real.

Riobaldo-Rosa diz de certo personagem: “Ele só falava por pedacinhos de palavras.” Escrevo assim: por pedacinhos de assuntos. Esses pedacinhos podem, quem sabe, fazer surgir um rendilhado que aqui e ali resulte belo. Uma beleza acidental e gratuita, nascida do acaso que terá dado ao tecelão belos fios e alguma habilidade (será?) para tramá-los. Não quero mais que isso. Melhor dizendo: não posso mais que isso.

 

© Nota de canapé: Romance do escritor, dramaturgo e roteirista Alcione Araújo.


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