Guardador ©
Categoria: Literatura

Confesso que, à medida que jogo na rede os fios que desfio, mais difícil vai ficando a tarefa de tecer outros fios para a rede. Não é falta de assunto: os assuntos (fios) são os de sempre. Minha vocação tecelã ressente-se da eterna repetição, da ausência de cores mais vivas no bordado, da estreita perspectiva das linhas escritas… Embora a insatisfação, sigo pintando e bordando as minhas historinhas abensonhadas (neologismo que colhi no Mia Couto). Sou o primeiro a saber que só se pode dar o que se tem. Não passo de um guardador dos fiozinhos apanhados no tear da vida – a fantástica vida se vivendo em nós e ao redor de nós (isso é de Clarice Lispector. Lindo, né?). Se eu acaso juntasse esses fios todos, que venho desfiando um a um, dia a dia, e os emendasse todos de uma vez, teria já um imenso tapete feito de nonadas.

© Nota de canapé: Livro do escritor João Antônio (1937 / 1996).


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    Alexandra
    15 de agosto de 2011

    … e que “guardador de fiozinhos apanhados no tear da vida”, que tessitura linda em textos breves e fundos, “abe-sonhados” pela palavra em estado de adiantada gravidez poética! Que privilégio poder contemplar esse imenso tapete de essencialidades…

    Obrigada por toda a beleza solta neste espaço aberto ao mundo, obrigada, Artesão da Palavra!


    Tarlei
    15 de agosto de 2011

    Alexandra, minha querida!
    Suas palavras, sem trocadilho nenhum, me deixam sem palavras. Que comentário lindo! É com assombro que leio o que você escreve sobre o que escrevo. Muito obrigado!
    Abraços,
    Tarlei


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    Tenho vários livros do Mia Couto — que coincidência! — e também o admiro muitíssimo. Mas os emprestei e não sei em que livro está esse achado, para mim talvez perdido…
    Suas “nonadas” estão muito desvirtuadas.


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    Querida Ângela,
    trata-se de um guardado bem à vista, esse do Mia Couto. Está no título do “Estórias abensonhadas”. Aproveitei para corrigir o post. Antes eu tinha optado por dizer “abe-sonhadas”. “Abensonhadas” é que é o certo, além de ser muito melhor.
    Abs,
    Tarlei






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