Um pouco acima do chão ©
Categoria: Literatura

Mal termino a leitura de toda manhã e já empunho o lápis em busca de não sei o quê – que virá. O não-sei-o-quê é o de sempre vestido com palavras novas. Procuro disfarçar o de sempre alterando o traje a cada dia. Será que consigo? O gosto por escrever logo cedo talvez se deva ao fato de ainda estar sob o efeito da entrega às asas da leitura. A leitura de toda manhã me dá, penso, uma certa autonomia de voo, razão de eu tentar um voo breve com minhas próprias asas. O voo é breve tanto pela pouca envergadura das asas quanto pela necessidade de recolher-me à minha condição de habitante do rés-do-chão. É forçoso abandonar a imaginação e voltar-me para a ação – argh!! Volto a contragosto e me ressinto horrores dessa necessária amputação – a amputação de que falo pode ser figurada assim: imaginação. Por mim ficaria sempre a bordo das asas da imaginação. Não sendo possível, contento-me com a possibilidade de todo dia elevar-me um pouco acima do chão. É assim que escolho onde pousar o olhar. Posso olhar para o agora, o ontem, o amanhã… Posso olhar para dentro, para fora… Posso olhar ao redor… Posso olhar para longe… Posso contar, aumentar, enfeitar, inventar coisas… Posso mentir, repetir, insistir, discutir… Duro é ter de escolher apenas uma dobra do leque que se abre para mim. Não importa. Vale a sensação de que posso tudo, embora ciente de que “querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade” (Fernando Pessoa).

 

© Nota de canapé: Primeiro livro do poeta Ferreira Gullar. 


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    Alexandra
    17 de julho de 2011

    Prezado Tarlei,

    continuo lendo e relendo esta preciosidade literária que é o seu blog. E mesmo sendo domingo, esse dia renegado na sua engraçada crônica “Amanhã”, permito-me escrever-lhe instalada neste castelo de relaxamento e preguiça – adoro o domingo! Todo dia é bom para cronicar quando se apreende o mundo “um pouco acima do chão”. E sua escrita sempre captura o infinito no chão breve do cotidiano!

    Beijos,
    Alexandra


    Tarlei
    19 de julho de 2011

    Querida Alexandra,
    suas palavras tão generosas me deixam sem palavras! Que belo comentário! Sei que estou longe de conseguir o que você me atribui. Quem me dera eu ter o poder de capturar “o infinito no chão breve do cotidiano”! (Adorei a expressão).
    Obrigado sempre!
    Abs, Tarlei


    Edna Freitass
    12 de julho de 2012

    Muito querido Tarlei,
    Você é um Alfaiate com A maiúsculo! Costura tão bem cada palavra!
    Inté.


    Tarlei
    17 de julho de 2012

    Muito querida Edna,
    é você que enxerga capricho nas costuras que intento.
    Obrigado!
    Abs,
    Tarlei


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    De tanto ler textos tão elevados, bem acima do chão, estou enlevada, pairando nas alturas.


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    De tanto ler comentários tão generosos, bem acima do que mereço, estou sem chão, “pairando nas alturas”.
    Obrigado, Ângela!
    Abs, Tarlei






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