Memorial do fim ©
Categoria: Literatura

Li, assim que saiu, o livro mais recente do escritor Evandro Affonso Ferreira – Minha mãe se matou sem dizer adeus. Agora leio, contente, que o livro é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Evandro é um mineiro de Araxá que vive há mais de quarenta anos em São Paulo e deve ter sessenta e poucos anos. Começou a publicar tarde. O primeiro livro (Grogotó!) é de 2000. O livro Minha mãe se matou sem dizer adeus é sombrio, triste, desencantado. O narrador-escritor (à beira dos 80 anos) intui e anuncia a morte próxima, enquanto se agarra à palavra (“A palavra é minha âncora”, o narrador diz o tempo todo) para prorrogar a vida – não pelo gosto de viver (é um desencantado), mas pelo temor da morte. Frase do narrador: “Mas acho que quero viver mais algumas páginas”.

Gosto de dizer que a leitura propicia um exercício de alteridade cada vez mais necessário e inadiável nesses tempos regidos pelo individualismo de massa – exercício de alteridade que faz da leitura uma fuga para a vida, nas palavras de Gabriel Perissé. Eu, que tenho uma natureza solar, alegre, gosto de me embrenhar pelas escuridões que envolvem tantas almas irmãs. E as escuridões alheias lançam luz (com licença do paradoxo) sobre as minhas próprias escuridões – que todos as temos.

O que me atrai numa obra não é exatamente a matéria narrada, antes a linguagem em que é plasmada. Não é “o quê”, é o “como” que me atrai. O Evandro tem uma linguagem altamente elaborada, um estilo cheio de surpreendências, arranjos sintáticos muito particulares. Sei pouco do Evandro. O que de principal sei é que ele foi dono de dois sebos em São Paulo – Sagarana e Avalovara. Sua própria biblioteca fez-se acervo dos sebos. Parece que trabalhou como publicitário. Hoje é aposentado e complementa a renda com o cachê ganho em oficinas de criação literária.

Tenho a sensação de que o Evandro é um homem triste. As poucas fotos que vi dele atestam isso. Sei que é apressado dizer, mas sinto que há no livro do Evandro um quê de conficção, algo como a arte imitando a vida. Apesar do que digo, não se pode esquecer que todo escritor é sempre um camaleão, o que torna de antemão malograda qualquer tentativa de rastrear o que há de invenção e memória naquilo que a escrita transfigura. Baste-nos o milagre humano da arte.

 

© Nota de canapé: Excepcional livro do escritor paraense Haroldo Maranhão (1927 / 2004). O livro ficcionaliza a morte de Machado de Assis. Vale destacar que há um capítulo inteiro todo costurado com frases colhidas nos livros de Machado de Assis. Belíssima realização literária.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress