Ensinamento ©
Categoria: Literatura

“Eu sou só um bicho carente de carinho” – é o que diz Rita Lee numa canção. Desnecessário dizer que o “eu” acima é um “eu” coletivo – somos todos bichos carentes. Eu não tenho muito do que me queixar. Sou bem acarinhado. Sinto que devia exercer mais a contrapartida de dar carinho. As expansões de afeto não são muito o meu forte – a timidez mata no nascedouro muitos desses gestos. Acho que tenho melhorado. Lembro aquela famosa Oração de São Francisco de Assis: “Fazei com que eu procure mais consolar que ser consolado, mais compreender que ser compreendido, mais amar que ser amado”. E eu poderia completar: “Fazei com que eu procure mais acarinhar que ser acarinhado”. Sei que o carinho pode prescindir da efusão e ficar confinado aos gestos discretos. É o que pratico – acho. E ninguém falou tão bem desse tipo de carinho quanto Adélia Prado no poema Ensinamento. Transcrevo: “Minha mãe achava estudo / a coisa mais fina do mundo. / Não é. / A coisa mais fina do mundo é o sentimento. / Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, / ela falou comigo: / ‘Coitado, até essa hora no serviço pesado’. / Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. / Não me falou em amor. / Essa palavra de luxo”.

 

© Nota de canapé: Se o raro teleitor gostou desse poema, pode curtir mais Adélia aqui.


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    Alexandra
    26 de junho de 2011

    Oi Tarlei,

    gostei do gesto discreto de carinho que de desprende de seu texto, aconchegado pelo singelo ensinamento de São Francisco e pela alma poética de Adélia Prado. Também acho que amor é palavra de luxo. E que nem sempre sabemos ler o que vem do outro, assim, em palavra aguada, na correnteza do dia.

    Um abraço amigo,
    Alexandra


    Alexandra
    26 de junho de 2011

    Ah, desculpe, não é para consertar o errinho acima, mas para lhe enviar um poema de António Gedeão que seu texto evocou: “Uma qualquer pessoa”.

    http://ondecoisaestranhanadaacontece.blogspot.com/2007/06/uma-qualquer-pessoa.html


    Tarlei
    27 de junho de 2011

    Oi Alexandra,
    Adorei seu comentário. Suas palavras, carregadas de generosidade e embebidas em poesia, são sempre muito bem-vindas. E é uma pena mesmo não sabermos pescar o que vem na correnteza das águas da palavra. Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Um abraço,
    Tarlei


    Tarlei
    27 de junho de 2011

    Alexandra,
    Diz o poeta Manoel de Barros que poesia é voar fora da asa. E voando fora da asa o poeta transvê o mundo. Isso para dizer que adorei o poema e o poeta. Obrigado!


    Eudes Arduini
    28 de junho de 2011

    Também sou carente de carinho. Acho que dou muito carinho a quem me cerca para que me sobre um naco.






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