Tantas palavras ©
Categoria: Música

Somos feitos de palavras. O problema é que sou tão fascinado por elas que não consigo escolher as palavras de que quero ser feito. Cometo aqui uma inversão tão ao meu gosto. Sim, somos feitos de palavras. Mas as palavras que somos não são livremente escolhidas. Eu ganho existência pelas palavras. No entanto, as palavras que me dizem só podem dizer o que sou. Não há margem para escolha: a palavra que me soa não pode se desgrudar do que sou. Como diz Wittgenstein, há uma relação isomórfica entre mundo e linguagem. Um e outro se condicionam mutuamente. Sabedor disso tudo, gosto de me escrever desatento, de me deixar desgovernar pelas palavras. Gosto de confundir e de me confundir. O que sei é que, por mais máscaras de que lance mão para me esconder, meu rosto verdadeiro sempre aparecerá por sob todas as máscaras. Tento ser outro – mais inteligente, mais interessante, menos comum, menos vulnerável… A brincadeira dura pouco. Logo eu mesmo dou as caras – mínimo, pequeno, comum, falho… Eis o que sou: um mínimo carapina do nada – com muito orgulho.

 

© Nota de canapé: Uma canção do Buarque, esse gigante.


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