Língua ©
Categoria: Música

Paulo Francis, jornalista que consagrou na TV um estilo rabugento e afetado, dizia: “Só acredito em iconoclastas que saibam erguer estátuas”. O ímpeto de destruir só tem valor se quem destrói está apto a também construir. Em matéria de usos lingüísticos, gosto de pensar por essa linha. Só quem conhece profundamente a língua pode se dar ao luxo de errá-la. E quando digo conhecer profundamente, não se veja aí nenhuma vinculação com altos estudos, finas especializações. Estou falando de nós mesmos, os donos da língua. Sou um entusiasta das variações lingüísticas. E somos um povo muito criativo no manejo da língua. Dois fenômenos vêm chamando a minha atenção. Resolvi, por minha conta, denominá-los de glossofagia e grafofagia. Estou me referindo ao fato de estarmos devorando pedaços de palavras na fala e na escrita. A grafofagia impera nos chats, o reino do fast. O interessante do fenômeno é que, mesmo com erosões substanciais nos vocábulos (as vogais são as mais sacrificadas), a comunicação se estabelece. A prática está bastante disseminada e nem é preciso o apoio de exemplos. Já a glossofagia é fenômeno mais interessante porque, de fato, amputa-se parte do corpo da palavra. Enquanto na grafofagia a intervenção é apenas no corpo gráfico da palavra, na glossofagia a palavra é atingida no seu corpo fônico. Exemplos colhidos a esmo: refri, rodô, preju, facul, mó (maior), visu, deprê, velô, patropi (proto contribuição do Jorge Ben Jor para país tropical) etc. Estamos chegando literalmente a um tempo em que, pra bom entendedor, meia palavra bas…

© Nota de canapé: Canção de Caetano com letra inspiradíssima. Está no LP/CD Velô e conta com participação especialíssima de Elza Soares.


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