Resmungos ©
Categoria: Literatura

Apesar das feições cândidas sempre afiveladas ao rosto, tenho cá minhas implicâncias. Uma delas tem a ver com o desempenho linguístico do nosso ex-presidente Lula. Como linguista amador, acolho de bom grado o falar menos culto. A diversidade me atrai em qualquer instância. Há quem insista em rotular de erro o que a ciência da língua há muito batizou de variação linguística. O que incomodava na fala do ex-presidente era a excessiva repetição, além dos vários cacoetes. Os cacoetes, aliás, é que mais me irritavam. Não aguentava mais ouvir “ou seja”, “para que a gente possa” e o famigerado “nunca antes na história deste país”. Certo dia ouvia no rádio o programa Café com o presidente. Numa certa altura ele faz um comentário qualquer do tipo: “Para que o brasileiro possa ter mais arroz, feijão, ou seja (sic), farinha, carne no prato…”. Ah, não dá! Marcos Bagno, escritor, linguista e professor da Universidade de Brasília, já cuidou de destrinchar o preconceito linguístico (este, aliás, o título de um de seus livros) que nos assola. Quero crer que a minha implicância com o desempenho linguístico do ex-presidente não seja fruto de preconceito. Fica aquela sensação de que para falar ao povo o bom mesmo é a repetição, é a muleta verbal, é o cacoete, é o lugar-comum, é o clichê… Será? Mas veja (outro cacoete do ex-presidente): não suportava a empáfia com que falava o FHC. E dele não se poderá dizer que falava mal. Quem entende o ser humano?

 

© Nota de canapé: Livro de crônicas do poeta Ferreira Gullar.


(1)


    Eudes Arduini
    27 de maio de 2011

    Coleciono cacoetes alheios!






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