Cada tempo em seu lugar ©
Categoria: Literatura

“Na idade em que estou, aparecem os tiques, as manias (..)”. Esses versos são da canção Bijuterias, de João Bosco e Aldir Blanc, e foi tema de abertura da novela O astro, exibida no fim dos anos 70. Tempos de Buriti Alegre, tempos de ver novelas no vizinho, tempos da vida se vivendo em mim (em nós) com a graça própria das descobertas… Sim, não me vexo de dizer que ando nostálgico, saudoso dos tempos idos – mania, decerto, própria da idade em que estou. Olha a graça do que escreveu Leminski (transcrevo ao jeito de prosa): “Ah, não se faz mais tempo como antigamente. Aquilo sim é que eram horas, dias enormes, semanas anos, minutos milênios, e toda aquela fortuna em tempo a gente gastava em bobagens, amar, sonhar, dançar ao som da valsa, aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento que a gente dançava em algum setembro daqueles mil novecentos e oitenta e sempre”.

Outra mania minha: citar. Gosto de espalhar aquilo que me toca. E o que me toca fica grudado em mim feito tatuagem, feito uma segunda pele. O corpo é um palimpsesto vivo que vai acumulando camadas de tempo. De tal modo que, no rosto de hoje, ainda se acham sobras da infância. Nada se perde; o que fui, serei. E no meu rosto de criança decerto já se escondia este rosto de hoje – o que torna o corpo um palimpsesto suigeneris. Tanto na criança de ontem quanto no homenino de hoje assinalo o mesmo encantamento pela vida. E para celebrar esse encantamento, mesmo não esquecendo que a vida é dor e delícia, a geografia móvel do meu rosto tem estado quase sempre emoldurada por um sorriso. O riso é minha fortuna gratuita que dissipo com incontida prodigalidade, certo de que o riso jamais me faltará.

© Nota de canapé: Belíssima canção do Gilberto Gil.


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