Mapas dos afetos ©
Categoria: Cinema

Posso dizer que sou um tímido ousado. A ousadia máxima se situa lá no finzinho dos anos 80, tempos dos meus vinte e poucos anos, tempos de quando a literatura era uma descoberta recente e eu um leitor indômito. Nessa altura estava encantado pela escritora Nélida Pinõn. O encantamento talvez viesse do contato inaugural com uma linguagem de altíssima voltagem criativa. Leitor obsessivo-compulsivo, fui atrás de tudo dela e sobre ela. E tamanho era o entusiasmo que me atrevi a escrever-lhe uma carta. Embora tomado de admiração pela envergadura de sua imaginação criadora, o livro que me levou a escrever para a Nélida foi A doce canção de Caetana, um livro de tessitura simples, se comparado aos seus outros livros, mas apaixonante. Escrevi-lhe uma carta amazônica, decerto que recheada dos arroubos próprios da idade. Passaram-se uns três meses e, para meu supremo espanto, recebo um telefonema da Nélida. A primeira reação foi arrepender-me da minha desenvoltura de tímido. Podia muito bem ter mantido meu provincianismo a salvo de uma exposição inesperada. Mas Nélida é uma mulher de grande generosidade e delicadeza, e soube me deixar menos deslocado do que o que seria natural. O fato é que o improvável aconteceu: falamo-nos. Podia ter ficado aí, mas eu desejei conhecê-la pessoalmente. Lá fui eu para o Rio de Janeiro a bordo da falta de desembaraço típica de um provinciano. Foi um encontro desses destinados a não mais sair do casulo da memória. Outra vez a generosidade da Nélida cercou de atenção o jovem leitor que eu era, tão comum quanto obscuro. Continuo tal qual, apenas menos jovem. Aquele encontro mereceu uma longa carta de agradecimento. Naquela altura eu já sabia da profunda admiração da Nélida pelo avô Daniel, exaltada, tempos depois, no livro O pão de cada dia onde brilha solitária esta frase: “Meu avô é minha narrativa”. Escrevendo a carta, tive um estalo: Nélida é anagrama perfeito de Daniel, seu avô tão amado. Contei isso na carta, certo de que a minha descoberta fosse do conhecimento da Nélida, certo de que a escolha do nome tivesse sido uma decisão familiar com a deliberada intenção da homenagem. Nélida, atenciosa sempre, me respondeu surpresa e emocionada com a descoberta. Guardo estas palavras da sua resposta: “Era meu destino amar meu avô!”. Sinto que essa descoberta casual me ligou a ela para além da condição de admirador. A história do anagrama, de tão significativa para a Nélida, é capítulo do livro de memórias Coração andarilho e crônica do livro Até amanhã, outra vez, e o meu nome, em ambos os livros, é carinhosamente mencionado. Com que palavras agradecer tamanha generosidade?

Nesse breve mapa do meu afeto por Nélida, tenho de contar ainda um acontecimento extradordinário envolvendo a Dona Carmen, mãe da Nélida. Convém destacar que no mapa dos afetos de Nélida brilham estas três estrelas-guias: o avô, a mãe e o pai (Sr. Lino), cada qual reverenciado comovidamente no Coração andarilho. O acontecimento com a Dona Carmen teve lugar no dia da posse da Nélida na Academia Brasileira de Letras. Lá estava eu, mais uma vez agraciado com a generosidade amiga. No tumulto natural de uma noite de gala, apinhada de imortais, de autoridades, de amigos tantos, e me sentindo meio deslocado, resolvi me aproximar de uma senhora miúda, austera, elegante, que eu intuí fosse a Dona Carmen. E era! Pude falar brevemente com ela e tenho uma grata recordação de nossa conversa.

“A história da amizade se tece com enredos simples” – Nélida escreveu a propósito de sua amizade com Clarice Lispector, lembrando episódios que dão conta do quanto é no despojamento dos gestos cotidianos que uma amizade se consolida. Os poucos encontros que tivemos não deixam dúvidas quanto a isso. Sigo admirando a trajetória da grande criadora que é Nélida Piñon, ainda que mantenha minha admiração o mais do tempo silenciosa.

Nélida, “uma peregrina sábia e sorridente”, nas palavras precisas de Carlos Fuentes (escritor mexicano), hoje aniversaria. É um bom dia para, além de cumprimentá-la pelo aniversário, deixar consignado o quanto a admiro e o quanto sou agradecido pelos repetidos gestos de atenção.

© Nota de canapé: Documentário do cineasta Júlio Lellis sobre a escritora Nélida Pinõn.


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    Julio Lellis
    25 de maio de 2011

    Prezado Sr. Tarlei Martins,
    que alegria ler seu blog. Muito me emocionou. Nélida me contou esta história e ela está no filme “Mapas dos Afetos”. Espero que você possa vê-lo. Um abraço que te envolva em felicidades. Júlio Lellis.


    Tarlei
    25 de maio de 2011

    Meu caro Júlio,
    que alegria receber o seu comentário! Muito obrigado! Estou muito curioso para ver o filme. Parabéns pela iniciativa da homenagem! A produção de cultura no Brasil é sempre uma batalha. Não terá sido diferente com você. Desejo sucesso e sorte!
    Forte abraço!
    Tarlei


    Monica Pinheiro
    1 de setembro de 2011

    Prezado Tarlei,
    Seu blog brilha como uma jóia delicada no meio da mesmice barata do nosso mundo da Internet. Nem me lembro mais como caí feito um náufrago nesta página sobre a Nélida Piñon, navegando em busca de informações sobre cinema. Primeiro, fiquei chateada por me deixar cair neste “engodo” cibernético (logo eu, que me julgo boa nadadora nestas águas!), mas depois fiquei encantada com a profundidade e a delicadeza do seu texto. É bonito ver alguém capaz de misturar afeto, erudição e simplicidade de um jeito tão competente e natural.
    Com admiração, deixo aqui o meu sorriso para você.
    Monica Pinheiro


    Tarlei
    1 de setembro de 2011

    Cara Monica,
    Respondo mais que agradecido ao sorriso que você fez pousar na minha tela. Quanta generosidade e delicadeza! Muitíssimo obrigado!
    O blog foi o jeito que achei de salvar alguns acontecimentos do dilúvio do esquecimento. Como está dito em algum recanto deste “nadifúndio”, o blog é o barquinho que venho povoando de nonadas — nonadas que a vida fabrica em generosa abundância.
    Terei imenso prazer em recebê-la outras vezes no meu puxadinho virtual. Apareça sempre que puder!
    Grande abraço,
    Tarlei






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