A menina dança ©
Categoria: Música

Tenho um jeito de ser meio encaramujado, meio encorujado… Isso significa que tenho hábitos recolhidos, quase invisíveis… A prerrogativa da quase invisibilidade, da discrição absoluta, faz de mim alguém muito observador. Na volta para casa, a pé, passo pelo Shopping Conjunto Nacional, o primeiro da cidade. Lá acontece todos os dias o evento “Um piano ao cair da noite”. E foi lá que vi a “menina” que dança. A “menina” de que falo deve ter uns 70 anos, está sempre sozinha, está sempre com umas sacolas, e sempre a encontro dançando… E dançando põe no rosto o mais contente dos sorrisos… Fico cogitando: para que mundos maravilhosos a música e a dança a transportam para ter no rosto aquele sorriso!? Dia desses, ao passar por ela – que dançava sozinha, como sempre –, temi ser tirado pra dançar. E se acontecesse? Não podia recusar jamais. Talvez seu maior sonho seja este: ser tirada pra dançar. Outro dia a flagrei numa traição inocente. Em vez do piano ao cair da noite, foi atraída pela música de uns sanfoneiros que tocavam na entrada do shopping. Era a única que dançava, sorridente e sozinha. Tenho pena dessa senhora cujo nome não sei, que vem não sei de onde, com suas sacolas, com sua vontade de dançar, com o seu sorriso… Reparei que as pernas (região do tornozelo) estão um pouco escurecidas. Deve ser problema de circulação. Reparei também que as costas estão bastante encurvadas. Mas, quando dança, esses aparentes achaques não são bastantes para apagar do rosto o mais feliz dos sorrisos. Palmas para ela!

 

© Nota de canapé: Um antigo sucesso dos Novos Baianos. Veja aqui.


(1)


    Inês Lempek
    8 de maio de 2011

    Tarlei,
    Palmas para ela! E para sua sensibiliade também. Lembrei do filme “Ensina-me a viver”…
    Inês






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