Todo dia era dia de índio… ©
Categoria: Música

Durante um tempo da minha meninice fui apelidado de “Índio”. Na época não entendia o porquê e hoje penso que era pela vasta cabeleira que decerto sugeria a forma de uma oca, de uma cuia. Em se tratando de um país mestiço como o nosso, o sangue índio certamente está presente nos meus genes. Deve ser por isso que o modo de vida indígena me atrai tanto. Se eu pudesse, viveria numa taba. Se eu pudesse, só tomava banho de igarapé. Se eu pudesse, minha dieta seria à base de beiju, canjica, tapioca, mandioca, paçoca, pipoca, pamonha… Se eu pudesse, andava pintado de urucum. Se eu pudesse, não fazia nada, feito Macunaíma. Se eu pudesse, só andava de canoa, rio abaixo, rio acima. Se eu pudesse, fugia da arapuca do trabalho – o trabalho me deixa tiririca. Se eu pudesse, me guiava apenas para o alto, feito o buriti. Se eu pudesse, deixava de nhenhenhém e ia direto ao ponto. Se eu pudesse, liberava a pororoca da inventividade e ia artesanar samburás, cocares, tacapes, muiraquitãs… Se eu pudesse, não escrevia essa mensagem mirim em que exibo um punhadinho de indigenismos que fui catar no Google. Se eu pudesse, falaria a língua Tupi. Se eu pudesse, ressuscitaria o ideal de Policarpo Quaresma, o de triste fim, aquele personagem sonhador e visionário que, tomado de fanatismo patriótico, levantou a bandeira da volta do tupi-guarani. Se eu pudesse, diria num brado bem retumbante “Tupi or not Tupi?” e o cara pálida que respondesse “não” seria alvejado com uma flecha embebida em curare. Como eu nada posso, fico quieto na minha toca.

 

© Nota de canapé: “… mas agora eles só têm o dia 19 de abril”, como diz a canção do Jorge Ben Jor, gravada com grande sucesso por Baby ainda Consuelo.


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