Abril ©
Categoria: Música

Em lugar da mentira a que o dia convida, a bela verdade destes versos de uma canção (ver nota de canapé): “Sinto o abraço do tempo apertar / e redesenhar minhas escolhas”. Já é abril. Daqui a pouco, maio. Daqui a pouco faço 48 anos. Daqui a pouco, meio século… Que susto! Os cinquenta anos são, na vida de qualquer um, uma nítida linha do equador. Aí começa a trajetória de perdas irreparáveis. E a morte (não quero ser mórbido) que todos carregamos dentro de nós vai operando sua lenta metamorfose. Num belíssimo poema de João Cabral (o poema completo pode ser lido aqui) está dito: naquele dia, “nascemos eu e minha morte”. Uma simetria poderia ser invocada para quando sairmos do círculo do tempo: “naquele dia, morremos eu e minha vida”. A vida vem com a morte dentro. A morte leva a vida dentro. Parece bastante racional pensar assim, sobretudo em termos cósmicos. Afinal, vida e morte não se largam. Olha o que diz Adélia Prado num poema: “Eu sempre acho que uma coisa gera,/ nunca nada está morto. / O que não parece vivo, aduba. / O que parece estático, espera”. Falando de vida e morte, estamos falando, em essência, de passagem, de páscoa… E acho lindo que o símbolo da páscoa seja o ovo. Reparando bem, a barriga de uma grávida se parece com um ovo. O feto se parece com um ovo. A própria terra se parece com um ovo. O universo tem forma de ovo. E quer maior sinônimo de vida do que o ovo?

 

© Nota de canapé: Canção de Adriana Calcanhotto gravada por Leila Pinheiro no CD “Na ponta da língua”. Pode ser ouvida aqui.


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