O bicho alfabeto ©
Categoria: Literatura

Indo na contramão da tecnolatria desenfreada, digo que manuscrever, para mim, é “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias” (Caetano Veloso). Pode haver gesto mais simples e, ao mesmo tempo, mais sofisticado? Eu fico embasbacado. E o mais assombroso é que a tecnologia da escrita está assentada, toda ela, nas míseras 23 (agora 26) patas do nosso bicho alfabeto. Com essa franciscana economia de meios se consegue dizer tudo que se queira. Inventar um equivalente gráfico para o som me parece a realização máxima da inteligência humana. E para produzir esse equivalente gráfico bastam os franciscanos lápis e papel. Não é fantástico? A expressão fônica é volátil por excelência. A expressão gráfica possui índices de perenidade. O gráfico tem em si a possibilidade reversa de converter-se em fônico. O fônico, se não o recolhe a escrita ou a gravação audiovisual, perde-se para sempre.

 

© Nota de canapé: Lindíssimo poema do curitibano Paulo Leminski (1944-1989). O poema está no livro La vie em close e pode ser lido aqui.


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    João Batista Ferreira
    29 de março de 2011

    Caro Tarlei, parabéns pelo site e o texto inspirado em Leminski. A escrita é mesmo este exercício de espanto de tentar uma aproximação com “o que não se escreve” mas ainda assim é capturado pela fresta invisível das palavras. Grande abraço, João






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