Fale com ela ©
Categoria: Cinema

Li no blog da Elisa Lucinda: “A câmera segue com seus dois olhos e uma mente que faz filme na película da palavra”. Achei lindo! Hoje vou tentar pôr na película da palavra uma cena que chega a meus olhos com alguma tristeza, sim, mas também com vastas porções de amor. Mais de uma vez vi, num shopping que frequento, uma senhora de cadeira de rodas conduzida ora por um homem (filho?), ora por uma mulher (filha?). A senhora não move um músculo do rosto – que parece congelado numa expressão para sempre triste e dolorida. Mesmo assim os que a acompanham são inexcedíveis no carinho, no desvelo, no cuidado… Desdobram-se em atenção absoluta para ela, conversam, seguram as mãos, acariciam o rosto, perguntam se está gostando… Fico admirado de tamanho desvelo, mesmo não havendo no rosto da senhora o menor vestígio de reação. Vendo essa cena me lembro muito do filme Fale com ela, do Almodóvar. A diferença (se se pode dizer que há diferença) é que a personagem do filme está em coma. O estado de vigília da senhora, no entanto, não a distancia tanto do coma – pelo menos em termos de reação. Certa vez deparei com o filho (só pode ser) todo molhado. Pareceu-me que a mãe (só pode ser) tinha vomitado algo que bebera. O filho não parecia nem um pouco alterado, antes preocupado com o bem-estar da mãe, sem qualquer sinal de contrariedade pelo imenso incômodo. Fico olhando admirado e comovido para um amor assim tão generoso, tão dedicado, tão só de amor feito… Serei capaz? Lembro uma frase da escritora Nélida Piñon: “Viver é desbravar a própria finitude”. Tanta coisa pode nos acontecer até à consumação da nossa finitude! Tenho medo. Mas nisso o budismo me fortalece com uma única palavra: “Aceita!” É com esse espírito de aceitação do que vier que sigo em frente – sem medo.

 

 © Nota de canapé: Um dos mais elogiados filmes do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Arnaldo Jabor escreveu essas belas palavras sobre o filme: “Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, apoiada na trêmula beleza dos balés de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe ‘aquém’, antes da vida.” 


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    Eudes Arduini
    25 de março de 2011

    Caro amigo Tarlei.
    O filme do Almodóvar é realmente lindo. Chorei muito ao pensar que aquilo poderia acontecer com alguém da minha família ou mesmo comigo. Também tenho medo do futuro, do desconhecido, do “au-delà”. Especialmente hoje que estou completando a idade que tinha a minha mãe quando ela se foi: 35 anos. Em poucos meses serei mais velho que minha mãe. Terei vivido mais do que ela.
    Grande abraço.


    Tarlei
    25 de março de 2011

    Amigo Eudes,
    Obrigado pelo comentário e parabéns pelo aniversário.
    Mesmo com todo medo do futuro, que eu também tenho, temos de enfrentá-lo. Mas não custa esta invocação: que o futuro nos seja leve!
    Abraços,
    Tarlei


    Iralene Araújo
    30 de março de 2011

    Fale conosco, Tarlei!
    Leio com gosto o que você diz. Ou seria melhor falar como manuseia, combina e calibra palavras? Isto também está presente de forma bastante intensa no “texto” de Almodóvar, dono de uma narrativa tão pulsante, contemporânea e, embora possa figurar contraditório, clássica. Sua grande força talvez esteja na qualidade de provocar um olhar mais humano sobre as coisas da vida, sobre o outro e sobre nós mesmos. Funciona. É fato, você atestou!
    Grande abraço


    Tarlei
    30 de março de 2011

    Querida Ira,
    Que belo comentário! Já fico contente de saber que você se dispõe a ler os meus atrevimentos. Merecer um comentário, aí já é demasiado luxo. Muito obrigado!!
    Abraço,
    Tarlei






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