Todo mundo devia escrever ©
Categoria: Literatura

 

Lendo, a gente acaba desenvolvendo o comichão da escrita, a gente quer deixar pegadas no mundo. Quem não teve a tentação do diário? E por que os blogs se multiplicam com a velocidade das metástases? É que a palavra é terapêutica e, como bem diz o mestre Antonio Candido, tem um amplo raio ordenador. A palavra tem na sua gênese a missão de batizar o mundo, de dar ordem ao caos – a ordem possível no caos impossível de qualquer ordem… Daí que a vontade da escrita me persegue sempre. Só que eu sempre associei o escrever ao recolhimento, à lentidão, tudo feito em ritmo de slow food, sem a pressão do tempo impedindo os voos da imaginação. Descobri que funciono de outro jeito. Ter muito tempo para alguma coisa estranhamente me esteriliza. Tudo vai ficando em gestação sem nunca chegar ao parto. O que eu preciso é não ter tempo nenhum, plano nenhum, ideia nenhuma… E esses textos apressados de si mesmos, nascidos em ritmo de text-food, são a prova de que eu só funciono sob pressão. Não deve ser em vão que me juntei à ala dos hipertensos… Acho, então, que o meu elemento é o fragmento, o esboço, o ensaio, o work in progress (chique, não?). E se sou um saco de esterco ambulante com direito a florir, como afirma de nós o Otto Lara Resende, pode ser que, mexendo nesse esterco com obstinada dedicação, eu logre fazer brotar alguma florzinha. Por que não?

 

© Nota de canapé: Livro do francês Georges Picard em lançamento da Parábola Editorial.

 


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress