Flor de obsessão ©
Categoria: Literatura

[PSiu: Para não ser flagrado em delito de plágio, adianto que pinguei no texto alusões a algumas obsessões verbais do Nelson Rodrigues. Mesmo desaspeadas, os leitores de Nelson as reconhecerão facilmente.]

“O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões” (Nelson Rodrigues). A soma de minhas obsessões por escrito está a uma pá de lavrar aqui neste cercadinho de palavras o canteiro de número 500. Não importa que, tudo somado, o resultado seja quase nada. Desde que me empoleirei nesta tribuna virtual de onde emito meus cacarejos, fiquei refém da minha obsessão em flor. E porque, além de obsessivo, sou também preguiçoso e perfeccionista, sofro da síndrome que batizei de POP: preguiçoso-obsessivo-perfeccionista. Desnecessário dizer que os três lados da síndrome convivem em perfeito desequilíbrio. O perfeccionista acusa o preguiçoso, o preguiçoso acusa o obsessivo e o obsessivo não dá ouvidos a ninguém. E sobra pra mim desadministrar o conflito. Não podendo subir pelas paredes como uma lagartixa profissional, me deixo levar. Tomado de límpido impudor, e a bordo da minha bem-intencionada mediocridade, vou enfileirando nonadas a mancheias na superfície de cadernos e telas. Ponho no que escrevo aquela profundeza que uma formiguinha atravessa, a pé, com água pelas canelas. Sem nenhum pudor da repetição, exercito quase todo dia a santa mediocridade de virtudes e defeitos que carrego como insígnia. Às vezes, tomado de sagrada vaidade autoral, acalento o desejo de que algum dito meu provoque insuportável delícia auditiva. O desejo passa logo e eu logo volto ao tom menor, ao falar baixo, ao pudor autoral que cerca meus escritos. Penso que é justamente essa sobriedade, esse vôo rasteiro que rega a flor de obsessão que sou. O que dá aos meus escritos um mínimo de unidade é a soma de suas repetições. Que o raro leitor entenda e perdoe, mas não há longa conversa sem um belo repertório de repetições. É bem o que disse Machado: “A vida não passa de dois ou três lances que as circunstâncias multiplicam ao infinito”. São esses dois ou três lances que vêm alimentando minha obsessão em flor. Que , talvez, não demore a se fechar num botão de silêncio.

© Nota de canapé: Antologia com as melhores frases do Nelson Rodrigues – seleção e organização de Ruy Castro.


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    Angela Delgado
    16 de novembro de 2014

    Nada de se fechar em botão de silêncio, que seus textos agradam muito!
    Bom domingo!


    Tarlei
    17 de novembro de 2014

    Minha querida Angela,
    sua opinião conta muito, mas não convém correr o risco de cansar a minha meia dúzia de leitores fiéis. Pensando assim, creio ter chegado a hora da ancorar meu barquinho.
    Abs,
    Tarlei






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