Prece ©
Categoria: Literatura

“A morte não é feia nem bonita. / A morte é onde a vida põe um ponto. / Um ponto de partida.” (Marina Colasanti). Gosto demais desse pequeno poema, em especial da virada semântica que ele propõe: em vez de ponto-final, um ponto de partida. Porque a vida é isto: uma passagem ligando dois mistérios – o mistério de onde viemos; o mistério para onde vamos. Viver é esse caminhar com a morte, alguém já disse muito acertadamente. Pensando assim, João Cabral, o poeta cabal, lapidou na pedra de um poema estes versos: “(…) em pleno céu de gesso, naquela madrugada mesmo, nascemos eu e minha morte”. Nascemos para morrer. A vida é essa chama acesa que se assemelha a uma vela: enquanto morre, ilumina. O tempo que acende a vida com seu sopro é o mesmo tempo que a apaga. A ninguém é dado saber a distância que percorrerá na estrada do tempo. Cumpre-nos, tão só, realizar a travessia. Caminhando sempre, chegará o dia em que sairemos das margens do tempo para um tempo sem margens.

Hoje é dia de elevar uma prece a todos os da família que habitam esse tempo sem margens, os que partiram para o outro lado do mistério. Já são muitos os que se encantaram. Estão todos vivos na memória dos que os amaram e amam. Porque é verdade mais que verdadeira: “O que a memória ama fica eterno” (Adélia Prado). Nosso quinhão de eternidade é este: continuar vivo na memória de alguém. Os mortos da família já pesam no lado esquerdo do peito, já pendem numerosos da parede da memória. Cumpriram a travessia que lhes coube com admirável bravura. Relembro-os todos com muita saudade. E saudade, como bem disse a poeta Elisa Lucinda, é fome de presença.

© Nota de canapé: Poema de Fernando Pessoa musicado por André Luiz Oliveira.


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