Tudo bem ©
Categoria: Música

Sou muito certinho, agradavelzinho, engraçadinho e, às vezes, provocantezinho. Escrevo bonitinho, corretinho, obedientezinho, coerentezinho, elegantezinho. Queria era poder sair para fora de todas as lógicas. Queria escrever algo feito para não ser entendido, embora sem abrir mão de algum sentido. Estou cansado da linearidade bem-comportada, sem sustos, sem surpresas… Ponho uma florzinha aqui e ali, mas o texto é previsível e vai no encadeamento lógico que se espera. Queria pôr nos olhos de quem me lê um desconcerto assustado: “Espera aí! Que é que esse cara tá dizendo?”. Mas não. Tudo segue em linha reta com mínimos espaços para uma ou outra curva inesperada. Queria o precipício, o buraco, o salto no escuro.

A escritora Nélida Piñon conta de uma crise que sofreu ao escrever em um texto a expressão “ladeira íngreme”. Incomodava-lhe a muleta verbal esculpida para ser lugar-comum. O uso da expressão revelava uma indigência imaginativa incompatível com quem queria se entregar a vôos criadores de alta envergadura. Nélida passou anos só fazendo exercícios de imaginação com o intuito de libertar o texto de quaisquer automatismos, sejam lógicos, ideológicos, sintáticos, semânticos, filosóficos, históricos etc. Nélida conseguiu imprimir à sua escrita uma altíssima voltagem criativa. Eu, dono de uma imaginação pedestre, apenas ensaio um bater de asas discreto que me mantém sempre no limiar do chão. Mesmo assim, faz bem rebelar-se contra uma limitação. É um jeito de dizer: sei onde estou e sei onde não posso chegar. E tudo bem!

© Nota de canapé: Canção do Lulu Santos.


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