Textamentos ©
Categoria: Literatura

Minha arca textual já transborda dos text-foods em série que venho cometendo. Quase tudo vira pretexto para os meus textamentos. A vocação têxtil não se cansa de fiar e desfiar o que lhe caia no tear. Entretenho-me entretecendo entretextos. Cada fio, uma textura. Cada textura, uma trama que vale revelar. A trama do texto e da vida tem um traço em comum: os poucos fios de que se tecem. No entanto, a combinação desses fios leva às mais fabulosas tramas. Para Machado de Assis, e não sei se em palavras textuais, a vida não passa de dois ou três lances que as circunstâncias multiplicam ao infinito. No subtexto da sentença machadiana se lê que vida é repetição. E se assim é, o texto que a revela, também. Se tudo é repetição, se tudo já foi dito, todo texto é intertexto que se equilibra no fio de uma intertextualidade contínua.

Na gestação da vida, entram os mesmos genes – e é espantosa a variedade que deles nasce. Na composição do texto, entram os mesmos fios – e é incrível a variedade das tramas que com eles se bordam. Gestação e textação lidam com o milagre da multiplicação de genes e de traços. Dos genes se fazem vidas. Dos traços se fazem textos. Na vida, o protagonismo da multiplicação dos genes vem da ação gestante das fêmeas. No texto, a multiplicação dos traços vem da ação textante de uma espécie especial: os textadores. Vida e texto são umbilicais. Ninguém escapa do texto da vida. E o texto não pode deixar que a vida lhe escape. A maior alegria da espécie que vive de agarrar a vida com palavras é provocar no raro leitor algum têxtase. Benditos os que o conseguem!!

Dito isto, o raro leitor releve essas disposições textamentárias meio sem contexto, meio sem quê nem pra quê.

© Nota de canapé: Livro do poeta Affonso Romano de Sant’Anna.


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