A vírgula ©
Categoria: Literatura

O poeta Ferreira Gullar tem uma frase que ficou famosa: “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. Sem discordar do poeta, e sem querer dizer que sou um ás do assunto, não tenho medo da crase. Da vírgula, sim, tenho medo. A vírgula tem um comportamento quântico em certas estruturas sintáticas: pode ocorrer ou não. São as vírgulas facultativas, feitas para abrigar as soluções de estilo, conforme o escrevente opte por um máximo ou mínimo de vírgulas. Até aí, tudo bem. O problema está nas vírgulas proibidas. E somos facilmente levados a virgular onde haja pausa, esquecidos de que a virgulação em língua portuguesa obedece a critérios sintáticos e não prosódicos. O complicador do uso da vírgula é estar ela associada a uma pausa. O gramático Celso Pedro Luft, num livro todo dedicado a sua majestade, a vírgula, ensina que nem a toda pausa corresponde uma vírgula, nem a toda vírgula corresponde uma pausa. Porque a nossa virgulação, sendo de base sintática, como já ficou dito, segue o critério de não separar o que é sintaticamente ligado. A definição de vírgula, nesse sentido, é claríssima: “Sinal de pontuação que indica falta ou quebra de ligação sintática no interior das frases”. Claríssima a definição, não tão claro o uso. A dificuldade está em reconhecer claramente, no interior de certas frases, as estruturas sintáticas que não podem ser separadas por vírgulas. Quem é que, afora os gramáticos especializados, lê uma frase e diz sem sombra de dúvida: eis aqui um complemento nominal, um complemento verbal, uma oração adjetiva restritiva, uma oração subordinada substantiva, e por aí vai? Porque o reconhecimento dessas estruturas é determinante para a correta virgulação. Diz o Celso Pedro Luft que, para virgular bem, é preciso ter domínio das estruturas sintáticas. Quem é que pode se gabar de ter um domínio pleno das tais estruturas sintáticas, tão variadas, tão camaleônicas, tão enganadoras? A vírgula é uma pedra no meu caminho de escriba. E se eu, um escriba zeloso da inculta e bela Flor do Lácio, colocar a pedra da vírgula em local proibido, lá se vai toda uma reputação – que eu, felizmente, não tenho.

© Nota de canapé: Livro do gramático e linguista Celso Pedro Luft (1921 – 1995).


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    napoleão maquino
    15 de outubro de 2014

    Adorei a ilustração!


    Tarlei
    16 de outubro de 2014

    Caro Napô,
    a ilustração foi um achado feliz. Tive de fazer um arremate no texto para encaixá-la.
    Abs,
    Tarlei






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